A política sempre teve um talento especial para criar situações verossímeis que não são verdadeiras. Antes mesmo de qualquer máquina aprender a fazê-lo, os homens que ocupam palácios e plenários já dominavam com virtuosismo essa arte perversa: a arte da verossimilhança sem verdade, do discurso que soa exato e é, no fundo, uma ficção bem acabada.
Ora, pois. A Inteligência Artificial chegou para fazer em segundos o que a classe política leva décadas aperfeiçoando. Cria o cenário, distribui as falas, confere ao conjunto uma aparência de realidade tão convincente que até os mais céticos se curvam diante da encenação. O problema — se é que se pode chamar de problema o que tantos chamam de progresso — é que a máquina pelo menos não tem ambição eleitoral. Não mente para se perpetuar no cargo. Não fabrica o verossímil movida pelo medo de perder o que tem. Mente, se quisermos chamar assim, por pura inocência mecânica.
O político mente com premeditação e método. Há toda uma engenharia por trás do falso plausível: o dado arrancado do contexto, a promessa calibrada ao gosto da plateia, o inimigo conveniente erguido como espantalho para que ninguém olhe para o celeiro vazio. Maquiavel descreveu isso com uma frieza cirúrgica que ainda envergonha os nossos comentaristas contemporâneos. O príncipe que aparenta virtude, dizia o florentino, governa melhor do que aquele que a possui. O verossímil governa o mundo. A verdade, quando muito, visita.
Diga-se: há algo de perturbador na coincidência. Justo no momento em que a humanidade começa a desconfiar das suas próprias instituições, a interrogar cada imagem, cada vídeo, cada declaração pública, surge uma tecnologia capaz de produzir industrialmente aquilo que a política artesanal já produzia a conta-gotas. O resultado é uma espécie de inflação do falso plausível. Quando tudo pode ser simulacro, nada mais pode ser verificado. E na névoa do inverificável, prospera muito bem o espécime que sempre prospera: aquele que não quer ser encontrado.
Redondamente. O que a Inteligência Artificial faz com palavras e imagens, a política faz com destinos. E o cidadão, navegando entre uma verossimilhança e outra, vai perdendo a bússola que já não era das mais confiáveis. Talvez o verdadeiro escândalo não seja que as máquinas aprenderam a mentir. Seja que aprenderam com os melhores professores.




