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A conta chegará

Há uma lógica perversa e quase elegante no modo como o Estado brasileiro se desfaz de suas responsabilidades. Não é um gesto brusco, não é uma ruptura escandalosa. É uma dissolução lenta, administrada, embalada em eufemismos de modernidade — eficiência, sustentabilidade, atração de investimentos —, até que o cidadão acorde um dia e descubra que o que era seu deixou de ser, e que vai pagar mais caro pelo privilégio de ter perdido.

A Companhia de Saneamento de Alagoas vai deixar de existir. A frase, dita assim, soa técnica, burocrática, quase neutra. Mas não é. É a extinção de uma instituição pública que carregava no nome a obrigação de servir — não ao acionista, não ao conselho, não à taxa interna de retorno, mas ao habitante de cada município, incluindo aqueles onde nenhum investidor privado enxerga rentabilidade porque a rentabilidade lá nunca existiu.

O serviço de água é, na sua natureza mais elementar, aquilo que os romanos já compreendiam quando construíam aquedutos: não é mercadoria, é infraestrutura civilizatória. Quem controla a água, controla a vida. E quando o Estado abre mão desse controle, o que se transfere não é apenas a gestão operacional — é o poder de decidir quanto custa a sede, quanto custa o banho, quanto custa a dignidade mínima de uma família que já tem pouco.

E existe outra certeza, aquela que vem junto, inseparável, como a sombra ao corpo: você vai pagar mais caro. Não é previsão, não é ideologia — é a aritmética simples do capital privado, que não entra em nenhuma concessão sem a garantia de que vai sair com lucro. Alguém vai pagar esse lucro. E esse alguém tem nome: é o alagoano que já convive com uma das menores rendas médias do país, que já enfrenta índices de saneamento entre os piores da federação, que já espera há décadas pela promessa de que a água limpa um dia chegaria.

A questão, portanto, não é se a Casal era eficiente ou ineficiente, se merecia ou não merecia reforma. Instituições públicas podem ser reformadas sem ser extintas — esse argumento foi inventado justamente para encerrar o debate antes que ele comece. A questão real é outra, e convém enunciá-la com clareza: quem ganha e quem perde quando o saneamento de Alagoas vira negócio? A resposta, como quase sempre neste país, não vai aparecer nos comunicados oficiais. Vai aparecer na conta de água.

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