Há uma arte, em Alagoas, que os nossos gestores praticam com uma destreza quase invejável: a arte de tornar invisível o que é volumoso. Dezesseis milhões de reais transferidos em dois anos a um único instituto privado, ligado à família de um deputado estadual com mandato em curso, e o assunto dormia tranquilo, sem que os habituais guardiões dos contratos públicos soubessem sequer da existência do repasse. Não é negligência. É talento.
O Instituto IZM e o deputado Lelo Maia protagonizam, neste episódio, uma relação que a política brasileira conhece de longa data, mas que nunca cansa de se reinventar com novas roupagens. O mecanismo é simples na sua engenharia e sofisticado na sua impunidade: uma instituição privada presta serviços ao Estado, recebe recursos públicos com a bênção da urgência ou do convênio bem redigido, e o parlamentar que orbita ao redor da estrutura fortalece sua base, distribui influência e cultiva o solo fértil do próximo pleito. A saúde pública, com seus contratos emergenciais e suas dispensas de licitação historicamente toleradas, é o habitat preferido desse arranjo. Nenhum outro setor oferece tantas janelas de entrada com tão poucas grades.
O que espanta, aqui, não é a existência da parceria. Parcerias com o terceiro setor existem, são legítimas e, em muitos casos, necessárias. O que espanta é a magnitude silenciosa: R$ 16 milhões, num período de dois anos, sem que pessoas que acompanham de perto os contratos da saúde alagoana soubessem do volume. Isso não é zona cinzenta — é escuridão administrada. É o dinheiro público se movendo na penumbra enquanto hospitais relatam falta de insumos, profissionais esperam salários atrasados e o cidadão comum supõe, ingenuamente, que seus impostos estejam custeando serviços e não carreiras.
Existe um nome clássico para este modelo, anterior até à República: é a privatização do Estado pelo interior do Estado. Não o saque explícito, grosseiro, que provoca escândalo imediato, mas a captura lenta, institucionalizada, em que o erário vai sendo drenado por estruturas que vestem jaleco e falam em nome da população. O curioso é que, enquanto o modelo prospera, ele também exige a cumplicidade do silêncio — de fiscais que não fiscalizam, de auditores que não auditam, de controles que existem no papel com a elegância de ornamentos decorativos. Quando o silêncio se rompe, como agora, a surpresa costuma ser o sinal mais honesto de que o sistema funcionou exatamente como foi concebido.
Alagoas merece uma resposta clara: quais os critérios que justificaram esses repasses? Quais as metas contratuais pactuadas? Quais os resultados auditados? Perguntas simples, de resposta pública, que em regimes de transparência seriam respondidas antes mesmo de serem feitas. Por enquanto, o que existe é a suspeita densa, o volume revelado e o silêncio de quem poderia, mas ainda não quis, explicar.




