Há uma arte antiga, quase nobre, de suprimir o que incomoda antes que chegue aos olhos do povo. Os reis faziam isso com o fogo. A Inquisição, com o índex. Renan Calheiros descobriu um método mais moderno e, convenhamos, mais elegante: o petitório judicial na véspera da publicação. O senador alagoano ingressou no TRE-AL para barrar uma pesquisa do Instituto Paraná Pesquisas sobre as intenções de voto para o Senado em Alagoas — levantamento feito entre 28 de junho e 1º de julho, com divulgação agendada para esta sexta. O argumento formal é técnico: três pré-candidatos teriam ficado de fora do questionário, o que comprometeria o “campo efetivamente em disputa”. O argumento real, esse, cada um que tire suas próprias conclusões. O curioso é que no rol dos incluídos figuram exatamente os nomes que qualquer leitor de jornais reconheceria como os adversários mais pesados de Calheiros: Alfredo Gaspar, Arthur Lira, Davi Filho. Quem ficou de fora foi Alexandre Fleming, do UP, Italo Bonja, do PRTB, e Marcos Omena, do Avante — siglas que, em Alagoas, não tiram o sono de nenhum político de porte. Proteger os pequenos. Que desvelo. Não é o primeiro episódio da temporada. Na terça-feira, o mesmo TRE já havia proibido a divulgação de uma pesquisa do RealTime Big Data, a pedido da federação PSDB-Cidadania. Alagoano aprende rápido com o vizinho. Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, chamou o movimento pelo nome: “mais uma tentativa de impugnar pesquisas eleitorais, de todos os institutos.” Alguém na campanha de Calheiros, ao menos, poderia ter ligado para explicar. Não atenderam. * * * Silêncio ensurdecedor A Folha tentou contato com Renan Calheiros por WhatsApp, telefone e com sua equipe de comunicação. Nenhuma resposta. Quando o político cala, o silêncio fala mais alto do que qualquer nota. Protocolo às 12h10 A ação foi distribuída no TRE-AL na tarde de quinta-feira (2). Até o fim do dia, nenhuma decisão judicial havia sido proferida. A pesquisa seguia, por ora, com publicação prevista para esta sexta. Precedente incômodo Na terça (30), o TRE alagoano já havia suspendido pesquisa do RealTime Big Data a pedido da federação PSDB-Cidadania. Quando vira rotina, a exceção deixa de ser exceção. Campo em disputa Segundo a petição de Calheiros, os nomes presentes no questionário eram os dele próprio e de Alfredo Gaspar (PL), Arthur Lira (PP), Davi Filho (Republicanos), Dr. Wanderley (MDB) e Eudócia Caldas (PSDB). Os ausentes — Fleming, Bonja e Omena — somam, juntos, menos palanque do que uma faixa de rua. Farpa “Isso é mais uma tentativa de impugnar pesquisas eleitorais, de todos os institutos”, disse Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, ao comentar a ação do senador. Não ofende Se a pesquisa não assustava, por que o mandado?
Fonte: Folha//Uol




