Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

Renan Filho abre temporada de escuta — mas a pergunta é o que vem depois

Há algo de circense na arte de governar em tempos eleitorais. O palanque se fantasia de tribuna, o slogan se veste de escuta, e o que era programa de governo se transforma, sem maiores cerimônias, em programa de imagem. O cidadão, experiente nessas liturgias, já reconhece o ritual antes mesmo que a cortina se abra.

Renan Filho anunciou que vai ouvir. O programa tem até nome para isso — “Você Fala, Renan Filho Escuta” —, e a estreia foi nesta quinta-feira, dia 16, às 18 horas, no Espaço de Eventos Jaraguá, em Maceió. Uma quinta-feira de julho, uma hora nobre, um endereço de gala. A cena foi composta com cuidado de vitrine.

Não se nega o mérito da iniciativa, se ela for além do protocolo. A escuta, quando genuína, é virtude rara na política brasileira, onde o governante fala, fala, fala — e o povo apenas resmunga nos bastidores da história. Se Renan Filho tiver ouvidos para o que for dito e não apenas para o que foi ensaiado, o programa merecerá outro juízo.

Acontece que há uma distância considerável entre escutar e ouvir. Escutar é postura. Ouvir é ato. O primeiro satisfaz a fotografia; o segundo exige consequência. E é aí que a maioria dos programas do gênero, ao longo da história política deste país, tropeçou: na travessia entre o microfone aberto e a decisão tomada.

Fica o registro. A quinta-feira chegou, a sala estava montada, e alguém tinha algo a dizer. O que se faz com isso depois — essa é a pergunta que nenhum press release responde.

VEJA TAMBÉM