A política brasileira tem o dom de surpreender até os mais curtidos no ofício. Mas há surpresas que ultrapassam a imprevisibilidade habitual do jogo e chegam a um território que só pode ser chamado de espetaculoso — aquele ponto onde o absurdo e o cômico se encontram numa mesma esquina, sem se envergonhar.
Flávio Bolsonaro queria registrar a candidatura à Presidência da República pelo Partido Liberal. Simples assim, ou pelo menos deveria ser. No entanto, ao chegar à Justiça Eleitoral, o sistema exibiu uma surpresa que nenhum marqueteiro da campanha havia colocado no roteiro: o senador aparecia filiado ao partido Missão. Uma filiação que, segundo a própria equipe, teria sido inserida na véspera, às 23h17 — horário em que pessoas honestas dormem e oportunistas trabalham.
A fraude, se confirmada, tem um timing cirúrgico. Não foi feita em dia de folga nem nas férias do Tribunal. Foi executada na janela exata em que o dano causaria o maior estrago possível: na véspera do prazo para o registro. Quem planejou a operação conhecia o calendário eleitoral melhor do que muitos dos que vivem dele.
O resultado prático foi a impossibilidade de registrar a candidatura. O PL e a equipe de Flávio correm para desfazer o nó. A questão que fica, e que a Justiça Eleitoral terá de responder com mais urgência do que conforto, é uma só: como alguém entra no sistema de filiações partidárias e altera o cadastro de um senador da República às 23h17 de uma terça-feira?
Missão impossível O partido que apareceu vinculado ao nome de Flávio Bolsonaro no sistema eleitoral chama-se Missão. A ironia do nome prescinde de comentário.
Horário nobre A filiação fraudulenta teria ocorrido às 23h17. Não foi descuido. Foi pontaria.
Não ofende Se alguém consegue mudar a filiação de um senador overnight, o que mais está à disposição de quem conhece as senhas certas?




