Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

Mestres da calçada

Em política, há momentos em que o silêncio é mais eloquente do que qualquer discurso de palanque. Arthur Lira e João Henrique Caldas sabem disso melhor do que ninguém. Quando o bonde bolsonarista chegou a Maceió, os dois — junto com Marina JHC — ficaram na calçada. Observando. Sem acenar, sem embarcar, sem se comprometer.

Não é covardia. É cálculo.

Lira tem décadas de sobrevivência política acumuladas nas costas; não chegou onde chegou fazendo apostas antes do apuramento das fichas. JHC, por sua vez, carrega a ambição de quem sabe que Alagoas pode ser apenas o primeiro degrau. Nenhum dos dois ignora que Flávio Bolsonaro já assinou embaixo: apoia o deputado para o Senado e o ex-prefeito para o governo do Estado. A reciprocidade — ao menos a de varejo, a que se estampa em foto e abraço público — ainda não veio. E talvez demore a vir.

É que há uma diferença sutil, mas crucial, entre ser parceiro de alguém numa eleição local e embarcar com esse alguém numa cruzada nacional. O primeiro compromisso tem rota curta e danos controláveis; o segundo amarra o destino a uma bandeira cujo vento ainda não é previsível. Lira e JHC conhecem a distinção. Por isso a parceria com Gaspar, por enquanto, fica circunscrita ao território — é alagoana, municipal, doméstica. Não atravessa as fronteiras do Estado nem aponta para Brasília.

E Lula? Caso o presidente decida desembarcar em terras alagoanas durante a campanha, é difícil imaginar qualquer um dos dois na fila do abraço. O muro os abriga dos dois lados. Alta e sólida arquitetura de conveniência — essa arte tão antiga quanto a política em si, e que os grandes articuladores sempre dominaram melhor do que os grandes ideólogos.

Por ora, o enredo tem uma única linha: Lira é Lira. JHC é JHC. E o futuro, que decida sozinho.

VEJA TAMBÉM