Há uma medida diferente para mulheres na política. Sempre houve. Mas raramente ela vem escrita com tanta clareza quanto nesta sexta-feira, quando uma publicação decidiu transformar a firmeza de Marina JHC em prova de desqualificação.
O argumento é simples, quase didático na sua crueza: a candidata estaria “esbravejando” em palanques. Ora, numa eleição em que homens berraram, acusaram, gesticularam e ocuparam todos os palcos disponíveis sem que ninguém erguesse a sobrancelha, a novidade é que a única mulher na disputa pelo Senado em Alagoas elevou o tom — e isso, ao que parece, precisa ser explicado, contido, enquadrado. O que nos candidatos passa por liderança, no caso dela vira esbravejo. A língua não mente.
Acrescenta-se ainda que Marina “não é alagoana” e que defenderia “unicamente a tecla feminina” — como se representar metade da população fosse uma limitação de pauta, e não exatamente o tipo de missão para a qual o Senado existe. O paradoxo é delicioso, não fossem as consequências sérias: durante décadas, mulheres foram cobradas por não ocupar espaço na política. Quando uma ocupa, cresce e responde com veemência, a cobrança se inverte. A régua mudou de lado, mas o objetivo é o mesmo — mantê-la fora.
Ser a única mulher entre os candidatos ao Senado já coloca Marina sob exposição desproporcional. Questionar suas propostas sobre saúde, primeira infância, mercado de trabalho ou violência contra a mulher é não apenas legítimo como necessário — é isso que se chama democracia. Outra coisa, inteiramente outra, é utilizar estereótipos sobre comportamento feminino para determinar qual deve ser o tom permitido a uma candidata. Há uma palavra para esse procedimento, e ela não é “análise política”.
A eleição cobra respostas de todos. O que ela não pode estabelecer — sem que alguém diga em voz alta — é uma regra silenciosa segundo a qual homens confrontam e a única mulher da disputa precisa pedir licença para ser incisiva. Esse é o tipo de preconceito que prefere não dizer o próprio nome.




