Em Santana do Ipanema, numa tarde qualquer desta campanha, um secretário de Estado subiu ao palanque e concluiu, com a convicção de quem enuncia uma verdade geométrica, que Marina JHC não sabe onde fica o Poço das Trincheiras nem se o lugar é agreste, sertão ou zona da mata. E acrescentou, como prova cabal de inelegibilidade, que ela é de Goiás. Estava anunciado o argumento central da resistência a uma candidata que, segundo as pesquisas, empatou com Renan Calheiros na disputa por uma cadeira no Senado — o homem que tenta o quinto mandato consecutivo em Brasília.
Marcelo Melo, secretário da Agricultura do governo Paulo Dantas e cunhado de deputado, não inventou nada de novo. Apenas foi mais explícito do que o figurino do cargo costuma recomendar. O roteiro é velho: quando uma mulher avança nas pesquisas além do tolerável, o primeiro instinto dos arranjos estabelecidos é questionar se ela pertence — à terra, ao espaço, à disputa. A geografia vira critério, como se senadores fossem eleitos por proficiência em cartografia sertaneja, e não por votos.
O que o episódio revela, no entanto, vai além da grosseria de um discurso municipal. Revela o grau de inquietação que Marina JHC produziu no ecossistema do calheirismo alagoano. Ninguém mobiliza secretário de Estado para atacar quem não incomoda. Ninguém convoca a ex-prefeita de Santana do Ipanema, Christiane Bulhões — segunda suplente do próprio Calheiros —, para emprestar o chão de sua cidade a esse tipo de performance, se a candidata do PSDB não representasse um risco real. O ataque é a fotografia do medo.
Há uma crueldade particular nessa modalidade de combate. Desconstruir não as ideias, não o programa, não o histórico de gestão — mas a origem. Tratá-la como forasteira num estado onde ela ajudou a conduzir políticas públicas como primeira-dama de Maceió. É a velha tática de negar o pertencimento antes de debater o mérito, porque no debate do mérito o resultado é incerto, e a incerteza, para quem acumula décadas de poder, é insuportável.
A questão que resta, nua e sem retoques, é esta: se uma candidata empatada nas pesquisas só merece, da parte do campo adversário, o argumento de que não conhece os nomes dos povoados — o que exatamente esse campo tem a oferecer além da própria permanência?




