Há falas que atravessam o plenário, sobem pelo teto e se dissipam no ar morno da capital. E há aquelas que pousam no chão, pesadas, com o barulho seco de quem deixou cair algo que carregava faz tempo. A deputada Célia Rocha escolheu o segundo tipo.
“A gente não pode aceitar que essa Assembleia continue dominando nosso estado, dominando polícia, Poder Executivo, justiça, dominando tudo.” Assim, sem rodeios, sem a gramática habitual dos acordos. Uma sentença que, dita dentro da própria casa legislativa, tem o sabor amargo de quem conhece o cardápio por dentro e decide, enfim, recusar o prato.
O que ela descreve não é exatamente novidade para quem acompanha a política alagoana com alguma atenção. O que é novidade — e não pequena — é que alguém diga em voz alta, com nome e sobrenome, aquilo que costuma circular apenas nos corredores, nas mensagens apagadas logo depois, nas conversas que não existem. O poder concentrado, quando não é nomeado, fica confortável. Envergonha-se pouco. Continua.
Existe uma diferença considerável entre o poder que se legitima e o poder que se sobrepõe. O primeiro negocia, convence, cede um palmo para avançar dois. O segundo simplesmente ocupa — o Executivo, a segurança pública, o sistema de justiça — como quem instala bandeiras em território conquistado. Célia Rocha usou a palavra certa: dominação. Não influência, não liderança, não articulação. Dominação.
A pergunta que fica, naturalmente, é o que vem depois da fala. Porque em política a coragem da denúncia vale pouco se não encontra o sustento da ação. Diagnósticos há muitos. O estado não carece de gente capaz de descrever o problema — carece de quem suporte o custo de enfrentá-lo. E esse custo, como qualquer veterano da vida pública sabe, raramente é pequeno.
Por ora, o gesto existe. A palavra foi dita. Em algum arquivo de áudio do plenário, ela ficou registrada. Às vezes é assim que começa — não com um plano, não com uma maioria, mas com uma voz que decide parar de fingi que não vê.




