Há respostas que revelam mais do que pretendem. Há explicações que, ao tentar justificar, acusam. Renan Filho encontrou, numa terça-feira diante das câmeras da TV Pajuçara, a mais eloquente das sínteses para doze anos de governo do MDB em Alagoas: o analfabetismo, disse ele, é “um problema geracional”.
Ouçam bem. Não é um problema de política pública. Não é uma falha de prioridade orçamentária. Não é sequer uma herança que se compromete a superar. É geracional — palavra comprida, técnica, que soa a diagnóstico e funciona como absolvição. Com ela, o candidato escorregou da responsabilidade com a destreza de quem aprendeu, muito cedo, que a melhor defesa é a névoa conceitual.
Alagoas, convém lembrar, não chegou a 14% de analfabetos por acidente geológico. Chegou lá governada. O MDB esteve no comando durante doze anos — tempo suficiente para uma criança nascer, crescer e chegar ao ensino médio. Tempo suficiente, portanto, para que a “geração” de que Renan Filho fala tivesse sido outra, caso alguém houvesse decidido que ler e escrever é um direito, não uma cortesia da sorte. Mas o candidato preferiu invocar a monocultura canavieira como explicação — como se o canavial, e não o Estado, fosse o responsável por manter adultos de cinquenta anos à margem do alfabeto.
O que falta, no entanto, não é a explicação. É o projeto. A promessa. A rota de saída. Renan Filho não mencionou nenhum programa, nenhuma iniciativa, nenhum horizonte para o problema que chamou de geracional — como se nomear a doença dispensasse o médico de receitar o remédio. Há nisso uma honestidade involuntária, quase comovente: após doze anos no poder, o candidato não tem o que prometer porque não tem o que mostrar. A herança que carrega nas costas pesa demais para ser disfarçada por uma sabatina televisiva.
Maquiavel, que entendia de príncipes e de povos, advertia que os homens são mais rápidos a perdoar a morte do pai do que a perda do patrimônio. Alagoas talvez demonstre o corolário desta máxima: é mais fácil perdoar o analfabetismo alheio do que admitir que ele foi, por doze anos, administrado como paisagem.




