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O tiro que saiu pela culatra

Há um tipo de candidato que, ao tentar atingir o adversário, acerta outra pessoa — e ainda estranha quando o projétil ricocheteia. Renan Filho parece ter descoberto, da pior forma, que 2024 não é 1984, e que chamar uma mulher pela relação que ela tem com os homens da família não é argumento político. É epitáfio de reputação.

No debate da TV Gazeta desta quinta-feira, o emedebista queria questionar o critério técnico das escolhas de JHC para a Secretaria de Saúde de Maceió. Intenção legítima. Mas o caminho que escolheu foi o de apresentar Lara Tenório não pelo que ela é, pelo que fez, pelo currículo que tem — e sim pelo marido e pelo cunhado. “A esposa do Tenorinho Malta, cunhada do Celso Luiz”, disse ele, como quem cataloga um pertence, não descreve uma gestora pública.

Existe uma velha prática, tão arraigada na política brasileira que quase passa por natural, de enxergar mulheres em cargos de poder como extensões dos homens que as cercam. A secretária vira o apêndice do cônjuge. A ministra, a favorecida do padrinho. A prefeita, a interposta pessoa do marido. É um reflexo tão automático em certos círculos que sequer é percebido como ofensa — o que, convenhamos, torna a coisa ainda mais grave.

JHC respondeu na hora, e a resposta foi cirúrgica: “Como você ataca uma mulher sertaneja que está hoje como secretária?” A pergunta não precisava de complemento. Ela já carregava o peso todo. E Renan Filho ficou ali, no estrado do debate, com o argumento na mão e o tiro no próprio pé.

O episódio diz menos sobre este debate específico e mais sobre um certo modo de fazer política que insiste em sobreviver ao tempo. Um modo que confunde familiaridade com desqualificação, que usa os laços de uma mulher como prova de sua incompetência, sem sequer perguntar o que ela construiu por conta própria. Lara Tenório assumiu a secretaria em abril. O que ela fez ou deixou de fazer na pasta — isso seria debate. O sobrenome do marido, não.

Campanhas eleitorais têm o dom de revelar caráter com uma brutalidade que nenhum marqueteiro consegue disfarçar inteiramente. Renan Filho decerto não acordou naquela manhã planejando ser acusado de misoginia em rede aberta. Mas o improviso revelou o repertório. E repertório, diferente de discurso, não se ensaia.

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