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O trono range

 

Uma pesquisa eleitoral, quando bem lida, não é fotografia — é radiografia. Ela mostra o que está sob a pele do corpo político, os ossos que sustentam e as fraturas que se escondem atrás do sorriso dos palanques. A divulgada nesta quarta pelo Instituto Ranking sobre as vagas alagoanas no Senado, em 2026, merece esse tipo de leitura mais demorada.

O número que salta aos olhos é a distância de apenas 3,87 pontos percentuais entre Arthur Lira, com 38,91%, e Marina JHC, com 35,04%. Dentro da margem de erro. Tecnicamente, um empate entre o senhor das pautas que foi e a prefeita que chegou. Para quem conhece a geometria do poder alagoano, a informação não é trivial: Lira construiu sua hegemonia ao longo de décadas, moldou alianças, distribuiu benesses e ocupou o centro gravitacional da política do estado com a naturalidade de quem herda um trono. Ver seu nome disputando palmo a palmo com uma candidata que ainda tem os calos da primeira gestão municipal é, no mínimo, o sinal de que o trono range.

Há também o número que ninguém fará questão de anunciar em alto e bom som: Renan Calheiros aparece com 26,12%, quase nove pontos atrás de Marina. Renan, o veterano, o hábil navegador das tempestades brasilianas, o nome que o Senado conhece pelos corredores e pelo sobrenome. Ficar em terceiro, neste estágio, não é derrota — é aviso. E Renan, mais do que ninguém, sabe decifrar avisos.

O que a pesquisa desenha, portanto, é um quadro de transição, daqueles em que a herança política ainda é pesada mas já não é suficiente. Marina JHC ocupa hoje aquele espaço incômodo e fértil dos que chegam de fora da moldura estabelecida, sem a patina do costume nem o peso do ressentimento acumulado. Se o cenário se confirmar nas urnas, Alagoas mandará ao Senado um passado e um presente — e caberá ao eleitor decidir qual dos dois senta na cadeira da frente.

Pesquisa registrada no TRE sob número

AL-01751/2026.

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