Há uma aritmética peculiar que governa certos contratos públicos neste país. Não é a aritmética dos manuais, com suas regras frias e universais. É outra — mais maleável, mais inventiva, capaz de produzir grandezas que crescem no silêncio de gabinetes e desembocam, discretamente, nas páginas do Diário Oficial.
Em quarenta e oito horas, o Governo de Alagoas publicou R$ 21,5 milhões em reajustes para uma única empresa: a F. P. Construtora Ltda. O maior pedaço — vinte milhões de reais, assinados pelo DER/AL — foi destinado à manutenção de vias urbanas na Grande Maceió, contrato que agora chega à cifra de R$ 251,2 milhões. Somados os demais aditivos, os contratos com a mesma construtora somam R$ 314,7 milhões em valor consolidado. São números que pedem pausa, respiração funda e alguma desconfiança metódica.
O que incomoda não é apenas o tamanho das cifras — a grandiosidade monetária, sozinha, não é pecado. O que incomoda é a leveza com que tudo foi feito. No contrato de pavimentação do acesso a Mata Grande, de número 011/2026, o reajuste retroage ao período entre julho de 2023 e julho de 2025, dois anos de correção acumulada, sem que se apresentem memórias de cálculo, sem detalhamento dos trechos efetivamente executados, sem que se saiba, ao certo, quanto já foi desembolsado à construtora. O ato administrativo que deveria iluminar, obscurece. A transparência convocada pelo próprio Diário Oficial é, aqui, uma transparência de fachada — aquele tipo de vidro que deixa ver a moldura, mas não o que está dentro do quadro.
Existe um vício antigo na gestão pública brasileira, e Alagoas não o inventou nem o detém com exclusividade: o hábito de tratar o erário como matéria elástica, suscetível de ser esticada nos momentos de conveniência, sem que se deva satisfações detalhadas a ninguém. O reajuste retroativo sem memória de cálculo é a versão contábil desse vício — ele chega com ares de regularidade, vestido nos termos técnicos de um aditivo, mas carrega no bolso a ausência deliberada de prestação de contas. Quando o dinheiro público cresce assim, em silêncio e em velocidade, a pergunta que fica suspensa no ar é sempre a mesma, e é sempre incômoda: a favor de quem, exatamente, trabalha essa aritmética?




