Há eleições que ensinam e eleições que confirmam. A disputa pelo governo de Alagoas é do segundo tipo — não porque seja menos tensa, mas porque revela, com didática quase cruel, o que a política brasileira faz de melhor quando se leva a sério: a aritmética fria dos territórios.
JHC e Renan Filho têm em mãos algo que vai além da intuição de palanque. São pesquisas e análises que destrincham o estado cidade por cidade, região por região, convertendo simpatias difusas em números, e números em estratégia. Não é mais campanha — é cirurgia. Sabe-se onde cortar, quanto aprofundar, o que não se pode perder sangue. O vitorioso, como já se intuiu nos bastidores, será aquele que vencer bem onde reina e perder por pouco onde patina. Máxima simples, execução que exige nervos de aço.
O PSDB de JHC aposta suas fichas iniciais no Sertão, especialmente nos rincões de Delmiro Gouveia, território distante da influência que o ex-prefeito construiu na capital. O MDB de Renan Filho, bem plantado no interior, mira a Grande Maceió com a determinação de quem sabe que a fortaleza do adversário precisa ser, ao menos, arranhada. Cada um invadindo o quintal do outro com método e sem alarde — o tipo de movimento que não dá manchete, mas decide eleição.
E sobre tudo isso paira uma segunda disputa, inseparável da primeira. JHC leva Marina Candia, sua esposa, candidata ao Senado. Renan Filho carrega o pai, Renan Calheiros. A lógica é implacável: quem vencer provavelmente arrasta o seu. De modo que Alagoas não elegerá apenas um governador em outubro — elegerá, na mesma sacudida, uma família inteira. É o que se tem. A política alagoana, fiel a si mesma, transforma o embate de projetos num negócio de sangue — no sentido mais literal e também no mais alegórico do termo.
Resta saber qual das duas genealogias terá fôlego mais longo nas urnas. A resposta, como sempre, virá dos rincões que ninguém visita nos noticiários, mas que os marqueteiros já percorreram palmo a palmo nos mapas. Alagoas decidirá, como de costume, em silêncio.




