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Wanderley na mira dos próprios aliados

No xadrez eleitoral, as peças nem sempre cumprem a função para a qual foram colocadas no tabuleiro. Às vezes o bispo vira obstáculo para o próprio rei. E quando isso acontece, a solução costuma ser discreta, silenciosa — da mesma natureza das decisões que nunca aparecem em ata.

É o que parece se desenhar em torno da candidatura de José Wanderley. Ele entrou em campo com uma missão precisa: corroer a base de votos de Alfredo Gaspar, então grande favorito na corrida ao Senado. Um candidato-ferramenta, como há tantos na história política de Alagoas. A engrenagem funcionaria sem maiores sobressaltos, se o cenário não tivesse sido reconfigurado pela irrupção de Marina JHC.

O grupo palaciano ainda digere a nova realidade. E o que antes era um lance de abertura inteligente começa a parecer um tiro que pode ricochetear. A avaliação que circula entre aliados diretos dos Calheiros — e convém ouvi-los, pois são gente que conhece o terreno — é que Wanderley estaria subtraindo votos não do adversário que se pretendia sangrar, mas do próprio Renan Calheiros. Uma ironia considerável para quem foi armado com outras intenções.

Renan, vale o registro, permanece candidato de peso. O desgaste existe — chama-se “fadiga de material”, e é o tipo de coisa que os anos acumulam em qualquer político de longa data — mas sua estrutura de votos tem raízes antigas e profundas demais para murchar por conta de um flanco aberto. O problema não é a solidez de Calheiros. O problema é a aritmética. Num pleito que se afunila para duas vagas, cada décimo de ponto importa, e uma candidatura amiga que drena eleitorado próprio deixa de ser aliada para tornar-se embaraço.

O grupo governista já conhece a receita para esse tipo de situação. Aplicaram-na a Maurício Quintella em 2018. O método, ao que tudo indica, não mudou — apenas os nomes na cartela.

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