Há derrotas que chegam como raios em céu aberto e há as outras — aquelas que vêm sendo fabricadas em silêncio, tijolo a tijolo, por mãos que às vezes pertencem ao próprio campo derrotado. A família Calheiros conhece bem os dois tipos. Desta vez, ao que tudo indica, coube-lhe a segunda variedade.
O nome que circula nos bastidores como o arquiteto involuntário do tombo é Luciano Barbosa. Não um adversário declarado, não um inimigo de longa data, mas alguém de dentro — ou próximo o suficiente de dentro para que o dano tivesse a profundidade que teve. Nada corrói tanto uma estrutura quanto a fissura que nasce no interior das paredes.
Existe uma geometria cruel na política: quanto mais alto o clã, mais expostas ficam as suas flancos. Os Calheiros construíram ao longo de décadas uma das arquiteturas de poder mais sólidas do Nordeste, aquela espécie de edificação que parece resistir a terremotos e invernadas. Mas as edificações mais robustas, quando cedem, cedem por dentro.
Atribuir a Luciano Barbosa a culpa número um pela derrota é, claro, um julgamento que a política faz de si mesma — e a política raramente é boa juíza. Há sempre a tentação de eleger um único responsável, de depositar sobre um só ombro o peso de um fracasso que, quase sempre, é coletivo, sedimentado ao longo de escolhas erradas, alianças frouxas e arrogâncias acumuladas.
Seja como for, o que se sabe é que o derrotado procura antes o culpado do que a lição. E enquanto os Calheiros apontam o dedo na direção de Barbosa, o relógio da política já avançou — indiferente, como sempre, às narrativas dos vencidos.




