Há uma espécie de lealdade que o mundo político raramente produz, e quando produz, é tão digna de nota quanto uma orquídea desabrochando no asfalto. Paulo Dantas e Marcelo Victor praticam essa espécie rara neste momento eleitoral de Alagoas — e o que chama a atenção não é apenas o empenho, mas a geometria do sacrifício.
Os dois se desdobram na arquitetura de apoios para Renan Filho e para Renan Calheiros, os dois ramos majoritários de um mesmo tronco, o clã de Murici, cada qual buscando a sua reeleição — o filho depois de um intervalo de quatro anos fora do Palácio. Não é pouca coisa. É um malabarismo de agenda, de telefonemas, de conversas nos corredores e nos bastidores que consomem dias inteiros de quem também tem a própria pele em jogo.
O detalhe que ilumina o caráter do arranjo é esse: Marcelo Victor, que disputa uma cadeira na Assembleia e aspira ao posto de mais votado, divide suas horas entre a própria sobrevivência eleitoral e a construção da vitória alheia. Há algo de quixotesco nisso — e também algo de calculado, como convém a todo bom articulador que entende que as grandes vitórias coletivas costumam render dividendos individuais mais duradouros do que as pequenas conquistas solitárias.
Mas o que torna a cena verdadeiramente interessante é a ressalva silenciosa que paira sobre tudo. As pesquisas dos institutos de prestígio nacional não sorriem para os Calheiros, e a aposta da dupla é na virada de cenário — essa vaga esperança que todo candidato em dificuldade abraça como se fosse uma tábua de salvação. Se a virada não vier, e as chances de que venha não são desprezíveis, há uma cláusula tácita no acordo: os Calheiros não poderão, em sã consciência, apontar o dedo para Dantas e Victor. Cumpriram. Entregaram o que tinham para entregar.
É o limite da lealdade — e também a sua dignidade. Há serviços que se prestam sabendo que o resultado final não depende de quem os presta, mas de forças maiores, de humores do eleitorado, de ventos que não obedecem a nenhum articulador. Paulo Dantas e Marcelo Victor sabem disso. E fazem mesmo assim.




