Há políticos que chegam ao poder porque o quiseram, e há os que chegam porque o poder, num dia de distração, passou por perto e não encontrou ninguém mais à mão. Paulo Dantas pertence à segunda espécie. Governador por acidente, nunca fez questão de disfarçar a condição: faltou-lhe vocação, faltou-lhe liderança, faltou-lhe talento — e faltou, principalmente, o apetite de quem governa por convicção e não por circunstância.
Agora vem a despedida, e com ela o gesto mais revelador de toda a travessia. A leva de projetos que desembarca na Assembleia não é obra de governo. É inventário. Chega depois da derrota dos Calheiros nas urnas, quando o relógio já bateu, e vem com prazo de validade longo demais para quem está de saída. Os deputados fazem a conta nos bastidores, e a conta é singela: o que se pede não é autorização, é hipoteca.
Governo paralelo, dizem os corredores. A expressão é generosa. O que se tenta ali é menos um governo do que uma sombra — a tentativa de projetar sobre o mandato alheio a autoridade que não se exerceu no próprio. Quem não conseguiu mandar enquanto tinha a caneta na mão sonha em mandar depois de devolvê-la. É a vaidade travestida de planejamento.
Na política, o tempo cobra juros. Os Calheiros descobriram nas urnas, e Dantas descobre no plenário, onde votos não se decretam e lealdades não se herdam. O amigo de ontem conta as cadeiras de amanhã. É antigo o ensinamento de que ninguém legisla para o sucessor sem que o sucessor tome nota — e, chegada a hora, cobre a fatura.
Fica, de todo esse período, a lembrança de uma administração que atravessou o Estado sem deixar marca funda, nem para o bem nem para o mal, o que talvez seja o veredicto mais severo que se pode dar a um governante. Não há obra que o defina, não há reforma que o acuse, não há discurso que o resuma. Há apenas a última remessa de projetos, batendo à porta da Assembleia como quem pede carona para além do próprio mandato.
Tchau, governador.




