⛅
Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

Lessa renuncia à vice-governança após ser punido por apoiar JHC nas eleições estaduais

Há gestos na política que dispensam comentário. Falam por si, com uma clareza que envergonha a maioria dos discursos. A renúncia de Ronaldo Lessa ao cargo de vice-governador de Alagoas, na última sexta-feira, é um desses gestos.

Lessa apoiou JHC nas eleições de domingo. Estava no direito que a democracia lhe confere — e que ele próprio, com precisão, invocou na carta ao governador Paulo Dantas. O preço foi imediato: os espaços institucionais que ocupava foram restringidos, as reuniões impedidas, o trabalho esvaziado por dentro. A punição não veio pelo decreto, mas pela asfixia silenciosa, método preferido de quem não quer assinar o que pratica.

Diante disso, Lessa fez o que poucos fazem: foi embora. Não negociou a humilhação. Não trocou a dignidade por um gabinete esvaziado mas ainda aquecido. Escreveu que “a liberdade de uma escolha política e o dever de servir à população precisam ser igualmente respeitados” — e agiu em consonância com as próprias palavras, esse gesto raro no ofício.

O que a carta revela é mais do que uma ruptura entre dois homens ou dois grupos. Revela a anatomia de um poder que confunde lealdade com vassalagem, que transforma o patrimônio público em instrumento de retribuição ou castigo, que só tolera a democracia enquanto ela confirma o que já estava decidido. Quando a democracia produz divergência — sua função mais elementar —, o poder fecha as portas e corta o ar.

Lessa partiu. Paulo Dantas fica. E Alagoas assiste, mais uma vez, ao espetáculo familiar de uma política que diz defender o povo enquanto disputa, nos bastidores, o controle das chaves.

Às vezes, a renúncia é a única forma de posse.

VEJA TAMBÉM