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O que a Arsal tem?

Há movimentos na política que se explicam sozinhos. E há os que, de tão improváveis, obrigam o observador a sentar-se, respirar fundo e reler a notícia duas vezes para ter certeza de que não leu ao contrário.

É o caso da indicação do conselheiro Otávio Lessa, do Tribunal de Contas, para a diretoria-presidência da Agência Reguladora de Serviços Públicos de Alagoas. Repare-se bem no sentido da seta: ela aponta para baixo. Um integrante da corte de contas, que detém uma das cadeiras mais exclusivas e protegidas da República, antecipa a aposentadoria compulsória para ocupar um cargo de segundo escalão do governo do Estado. Trocar subsídios, mordomias e penduricalhos pelo mobiliário modesto de uma agência reguladora não é o que se chamaria, no jargão, de ascensão funcional.

Em Alagoas, o quesito inovação vai avançando na condução da coisa pública, e algumas iniciativas chegam a ser de uma originalidade comovente. Esta, em particular, inverte a lógica elementar da carreira: no roteiro conhecido, o político sonha com o Tribunal de Contas, não o contrário. O Tribunal é a estação final, o porto, o sossego vitalício. Sair de lá por vontade própria tem algo de passageiro que desce do navio quando a travessia mal começou.

Daí a pergunta que fica no ar, honesta e sem segundas intenções: o que exatamente torna a Arsal mais atraente do que uma cadeira de conselheiro? Não é curiosidade fofoqueira. Trata-se de cargos e funções públicas, custeados por quem paga imposto, e o contribuinte tem o direito elementar de entender a aritmética dos seus governantes. Se alguém souber a resposta, que a compartilhe — o debate agradece.

Enquanto a explicação não chega, resta o silêncio, que em política nunca é vazio: é apenas um espaço que cada um preenche com a hipótese que preferir. E hipótese, como se sabe, é matéria-prima barata e abundante por estas bandas. Bastava uma palavra oficial para dissipá-la. Até agora, nem isso.

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