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Quem entra pagando o que não deve

 

Há uma aritmética silenciosa que todo governo que se despede pratica, e ela não aparece em discurso de inauguração: adiar o pagamento é a forma mais discreta de parecer solvente. O governo Paulo Dantas descobriu essa contabilidade e a pratica com método. As reclamações de prestadores de serviços e de empresas crescem a cada dia, e crescem em volume, não em tom — ainda é o murmúrio de quem tem contrato para cumprir e medo de perder o próximo.

O caso mais delicado é o da Saúde, onde os pagamentos escasseiam justamente onde a demora tem rosto e leito. Mas seria injusto reduzir o problema a uma pasta. Atinge praticamente todas as áreas. É um atraso democrático, distribuído com equanimidade entre fornecedores grandes e pequenos, antigos e recentes.

As cobranças, essas, seguem o caminho natural das águas: descem até os secretários. E ali encontram homens que pouco ou nada podem fazer, porque assinar empenho não é o mesmo que abrir cofre. Recebem o credor, oferecem café, prometem olhar, remetem ao gabinete seguinte. É o teatro da antecâmara, encenado há séculos em todas as administrações que pagam mal e falam bem.

O detalhe é que ninguém rasga nada: apenas empurra. A conta não desaparece, muda de titular. O que se economiza hoje em caixa se cobrará amanhã em credibilidade — e a cobrança virá endereçada a outro nome.

JHC vai ter de assumir uma despesa além do que poderia imaginar. Herdará o aplauso de quem não pagou e a fatura de quem não gastou. Há heranças que vêm com joia e há as que vêm com cartório — esta vem com carnê. Quem entra pagando o que não deve começa devendo o que não fez.

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