Há governos que a memória guarda por uma obra, outros por uma crise, outros ainda por um gesto de coragem numa hora difícil. E há aqueles que a memória guardará por aquilo que lhes faltou. A gestão de Paulo Dantas, tudo indica, pertence a essa última categoria: será lembrada menos pelo que fez do que pelos princípios que deixou de honrar.
Legalidade, impessoalidade, moralidade. Não são adornos retóricos de manual de direito administrativo nem enfeite para discurso de posse. São o chão sobre o qual se pisa. Quem administra a coisa pública não escolhe esses princípios como quem escolhe gravata pela manhã — recebe-os como obrigação, e responde por eles. O resto é administrar o que é dos outros como se fosse de casa.
A legalidade é a mais simples e a mais ignorada. Ela não pede talento, pede disciplina. Exige que o gestor se submeta ao mesmo texto que impõe aos governados, sem a pequena vaidade de imaginar que a lei vale para a plateia e não para quem está no palco. Quando essa fronteira se apaga, não há sucesso de gestão que repare o estrago.
A impessoalidade é mais delicada. Supõe que a máquina do Estado não tenha dono, não tenha afilhados, não tenha amigos com direito a porta dos fundos. Supõe, em suma, que o governo seja de todos — inclusive de quem votou contra. É o princípio mais fácil de proclamar e o primeiro a ser sacrificado, porque contraria a natureza da política, que vive de troca, de lealdade pessoal, de favor devolvido.
Da moralidade, enfim, não se cobra santidade. Cobra-se apenas que o administrador saiba distinguir o que é lícito do que é decente, porque nem tudo que cabe na lei cabe na consciência. É aí que se separa o governante do mero ocupante de cadeira.
Alagoas já viu passar muita coisa. Viu promessa, viu enredo repetido, viu a esperança servida em dose homeopática. O que lhe custa mais caro, no entanto, não é o governo que erra na obra — é o governo que afrouxa os princípios. Obra malfeita se refaz. Princípio dissolvido leva uma geração para endurecer de novo.




