Há planilhas que dizem mais sobre um governo do que mil discursos de posse. A do Portal da Transparência de Alagoas é uma dessas. Entre os 3.198 cargos comissionados ativos na folha de agosto de 2026, uma busca simples por três palavras — Suruagy, Amaral e Dantas — devolveu 49 nomes. Os três sobrenomes que, juntos, formam o nome completo do governador Paulo Suruagy do Amaral Dantas.
Façamos a ressalva que a decência impõe: sobrenome não é certidão de parentesco, e o Brasil está cheio de homônimos que jamais se cruzaram numa ceia de Natal. Mas a estatística tem seus pudores. Dantas aparece trinta vezes, somando R$ 205.307,96 por mês. Suruagy, dez vezes, R$ 119.260,56. Amaral, nove, R$ 64.810,32. O conjunto custa R$ 389.378,84 mensais e, esticado ao longo do ano com décimo terceiro e terço de férias, R$ 5,19 milhões. É muita coincidência para um estado só.
O detalhe mais saboroso do levantamento está no topo. Samara Suruagy do Amaral Barros Pacheco ocupa a Controladoria-Geral do Estado, o posto de quem fiscaliza, com R$ 28.400,69 por mês — R$ 378.675,87 na conta anual. Quem vigia carrega dois dos três sobrenomes de quem é vigiado. Não se trata de acusar ninguém: trata-se de notar que o espelho e o retrato têm o mesmo rosto.
Ao lado, Paula Cintra Dantas responde pelo Planejamento, Gestão e Patrimônio, a R$ 19.880,48 mensais, R$ 265.073,07 por ano. Renata Suruagy do Amaral Costa cuida da Superintendência de Regulação da Saúde, R$ 12.429,75 ao mês. Planejamento, controle, regulação — as três chaves da casa. Nenhuma delas está perdida.
O cargo comissionado foi inventado para que o administrador pudesse cercar-se de confiança técnica onde o concurso não alcança. Virou, em Alagoas como em tantos lugares, a antessala onde a confiança técnica e a confiança afetiva se confundem até ninguém mais saber qual é qual. E o contribuinte, que paga as duas, nunca é convidado a opinar sobre o critério.
Não se exige do governador que renegue sua gente. Exige-se apenas aquilo que qualquer republicano modesto exigiria: que o mérito preceda o sangue, e não o contrário. Enquanto a planilha disser o que diz, a suspeita trabalhará sozinha, sem precisar de adversário nenhum. Cinco milhões por ano é um preço alto para se pagar por uma dúvida.




