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A conta da Braskem

Cinquenta e quatro bilhões de reais. Escreva por extenso, contemple os algarismos, deixe que o número ocupe seu espaço no pensamento — e só então tente imaginar o peso da conta que a Braskem apresentou à Justiça de São Paulo nesta segunda-feira. Não é dívida. É uma cadeia montanhosa de obrigações, erguida ao longo de anos, que agora ameaça soterrar uma das maiores petroquímicas do hemisfério sul.

A recuperação extrajudicial é, na terminologia do direito empresarial, o gesto do devedor que ainda tem com quem conversar. Significa que a empresa chegou à beira do precipício, olhou para baixo com a lucidez dos que ainda podem recuar, e optou pelo acordo antes do estrondo. É distinto da recuperação judicial clássica — aquela que chega com o estardalhaço dos processos, a exposição das entranhas contábeis e a voragem dos advogados. Aqui, a tentativa é cirúrgica: sentar com credores, bancos e bondholders e renegociar antes que o pânico substitua a razão.

Os 90 dias de stay period concedidos automaticamente pelo protocolo do pedido são, nesse enredo, o equivalente jurídico de um armistício temporário. Ninguém executa, ninguém penhorou, ninguém corre — por enquanto. A diretoria ganha o fôlego para elaborar um plano de reestruturação que convença quem tem o dinheiro a esperar um pouco mais, aceitar juros menores, alongar prazos, adaptar o ritmo da dívida ao ritmo real do caixa. As fábricas continuam girando. O etileno não para. A petroquímica opera — apenas a geometria financeira que a sustenta precisa ser redesenhada.

Há, contudo, uma lição menos confortável que esse episódio carrega. Empresas desse porte não chegam a R$ 54 bilhões de passivo de alto risco por obra do acaso ou de uma única tempestade. Chegam pela acumulação silenciosa de decisões que, tomadas isoladamente, pareciam razoáveis, e que, somadas ao longo dos anos, construíram uma arquitetura frágil disfarçada de solidez. É a velha ilusão da alavancagem perpétua — a crença de que o crédito barato dura para sempre e que o crescimento absorve qualquer excesso. Até o dia em que não absorve mais.

O desfecho ainda está por ser escrito. A negociação dos próximos 90 dias dirá se a Braskem encontrou, a tempo, a parcela de credores suficiente para sustentar um acordo. Mas o que ficou registrado nesta segunda-feira não é apenas um protocolo jurídico — é o retrato de uma gigante que precisou, enfim, sentar à mesa com a realidade.

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