Há categorias de persistência que nem Sísifo, em seus tormentos eternos, conseguiria explicar. A pedra rola, volta ao pé do morro, e recomeça. Mas pelo menos a pedra não assina atos administrativos.
Marta Celeste de Oliveira Mesquita é médica, ex-diretora do Hospital Geral do Estado, presa preventivamente em dezembro de 2019 na Operação Florence — batizada, com alguma crueldade poética, de Dama da Lâmpada. A investigação era sobre fraudes na compra de órteses, próteses e materiais especiais na rede estadual de saúde. Renan Filho a exonerou. Fim de capítulo, pensou-se. Engano.
O capítulo seguinte se passa no gabinete do secretário Gustavo Pontes de Miranda, o Gordinho Topado, onde Marta reapareceu discretamente vinculada à estrutura da Secretaria de Estado da Saúde. Em junho de 2026, ela figurou como representante do próprio gabinete num grupo de trabalho sobre assistência farmacêutica em oncologia. O oncológico aqui, convenhamos, é a metáfora perfeita: células que resistem, que migram, que encontram novos tecidos para habitar.
O que torna o episódio ainda mais digno de registro é o endereço escolhido para essa reinserção. Gustavo Pontes de Miranda está sob investigação na Operação Estágio IV — nome que também não carece de ironia —, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e desvios de recursos do SUS em contratos que teriam movimentado mais de cem milhões de reais. O secretário chegou a ser afastado do cargo por decisão judicial, ficou 180 dias longe da pasta e voltou por liminar do STJ. Dois investigados, uma secretaria, uma política de saúde pública. Alagoas merece mais.
O governo Paulo Dantas ainda não se manifestou sobre o caso — o que, em si, já é uma forma bastante eloquente de se manifestar. Na ciência médica, chama-se de inação terapêutica a escolha deliberada de não tratar. Na ciência política, chama-se de outra coisa.




