Governar é, entre outras coisas, a arte de nomear e demitir. Poucos atos revelam tanto o estado de um governo quanto a maneira como ele acomoda e dispensa os seus — aqueles que preencheram planilhas, assinaram portarias e ocuparam salas com o peso da confiança política como carimbo na testa.
Paulo Dantas publicou, numa sexta-feira, a exoneração de 103 ocupantes de cargos em comissão. Cento e três. O número tem uma consistência própria, aquela que dispensa comentário e pede apenas silêncio contemplativo. Não é uma faxina discreta. É uma varredura.
Treze secretarias e autarquias foram alcançadas pelo movimento — da Primeira Infância à Infraestrutura, das Relações Federativas ao interior administrativo do Estado. A Secretaria da Primeira Infância liderou o placar com dezoito exonerações, o que tem uma ironia involuntária difícil de ignorar: a pasta que cuida dos que chegam foi a que mais dispensou os que estavam. A Infraestrutura veio logo atrás, com dezessete, e as Relações Federativas e Internacionais completaram o pódio com dezesseis. Três secretarias, cinquenta e um exonerados. O restante se distribuiu pelas demais como rastilho de pólvora num corredor comprido.
Na mesma edição do Diário Oficial — porque a burocracia não para, ela apenas muda de direção —, constam três nomeações. Todas para a Secretaria de Agricultura e Pecuária. Cem saem, três entram. A proporção diz algo sobre o momento, embora ainda não diga tudo.
O que move uma operação dessa envergadura raramente é aquilo que se lê no Diário Oficial. Os atos administrativos falam em exoneração de cargo em comissão, linguagem fria e técnica, asséptica como ficha de hospital. O que não se lê é o mapa dos descontentamentos, das lealdades revisadas, dos acordos que expiraram sem renovação. Em política, a demissão coletiva tem sempre um subtexto — e o subtexto raramente é apenas eficiência.
Resta observar para onde vai o vento daqui. Se o enxugamento antecede uma reconstrução, ou se é apenas o sinal de que algo se reorganiza nos bastidores com critérios que o Diário Oficial, por definição, não publica.




