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O que os números dirão

 

Há uma liturgia muito antiga na política brasileira que se repete, com pequenas variações de cenário e de personagem, a cada passagem de bastão: o momento em que o eleito descobre — ou finge descobrir — o que herdará.

JHC escolheu as palavras com o cuidado de quem avança por terreno minado. “Responsabilidade, rigor técnico e respaldo jurídico.” A frase não soa a ataque, soa a protocolo. É a linguagem do cirurgião que não quer ser confundido com carrasco — e que, ao mesmo tempo, já está com o bisturi na mão. Quando um governador eleito sente necessidade de explicar que analisar as finanças é “natural, um processo natural”, o adjetivo repetido duas vezes diz mais do que qualquer acusação direta jamais diria.

O que está em jogo em Alagoas não é apenas o ritual de transição. É o inventário. E inventários, como bem sabem os herdeiros de fazendas endividadas e de impérios familiares em declínio, podem ser a mais impiedosa das cerimônias. Revelam o que os anos de gestão preferiram manter na penumbra, os números que não cabem no discurso de realizações, as dívidas que não aparecem nos palanques. O orçamento, dizia um velho chanceler europeu, é a autobiografia moral de um governo.

JHC sabe que a força política de seu primeiro ato não estará na posse, mas no diagnóstico. Governar começa, quase sempre, pela arte de nomear o que se encontrou — com elegância suficiente para não parecer revanchismo, e com clareza suficiente para que ninguém ouse dizer que havia segredos. É um equilíbrio delicado. Poucos chegam a ele sem tropeçar. O tempo dirá se o governador eleito tem o passo firme que o momento exige.

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