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Derrota eleitoral do MDB expõe a crueldade silenciosa do governo Dantas com quem vestiram a camisa

Há uma espécie de ironia perversa que só a política é capaz de produzir com tanta eficiência: o homem feito pelo sistema que, ao ver o sistema ruir, trata de fazer o serviço sujo antes que alguém o faça primeiro.

Paulo Dantas chegou ao Palácio dos Martírios como se chega a uma herança inesperada — sem ter lutado por ela, sem ter merecido na convenção das urnas, ungido pela mão paterna da Assembleia Legislativa. O tampão, como o chamavam nos corredores da Casa de Tavares Bastos, virou governador. Depois, eleito pelo voto popular em 2022, chegou a se imaginar, quem sabe, maior do que era. Engano de espelho. Marcelo Victor, o presidente da ALE, sempre soube exatamente o tamanho de cada peça no tabuleiro — e o de Paulo Dantas coube, por todos esses anos, confortavelmente na palma da mão.

O que se passa agora, após a derrota do grupo palaciano do MDB nas disputas de 2026, tem o cheiro acre daquilo que os romanos chamavam de sauve qui peut — cada um por si, e o diabo leve os demais. Comissionados que foram obrigados a dividir o tempo entre o expediente do Estado e os atos de campanha de Renan Filho, que colavam adesivos em carros sob a pressão tácita de quem sabe que o emprego público é uma dádiva revogável, estão sendo desligados antes do fim do mandato, sem carta, sem comunicado, sem cerimônia. O coração que Dantas tanto proclamava como bússola de seu governo parece ter entrado em fibrilação logo após o fechamento das urnas.

É o epílogo clássico do poder que não se sustentou por mérito próprio. Quem foi erguido por outros tende, na hora da queda, a empurrar os que estavam abaixo. Os primeiros a sentir o chão são os mais vulneráveis — os que trabalharam, os que se curvaram, os que vestiram a camisa não por convicção, mas por necessidade. Esses não têm padrinho. Esses ficam para trás. E o governador que dizia trabalhar com o coração encerra o mandato demonstrando, com elegante crueldade, em qual órgão de fato residia o comando de suas decisões.

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