Em política, um simples gesto de desbloquear um contato no telefone pode valer mais do que um discurso de hora inteira. Luciano Barbosa sabe disso. Célia Rocha também. E quando o prefeito de Arapiraca voltou a abrir esse canal com a vice-governadora, mandou um recado que qualquer veterano da política alagoana leu sem precisar de tradutor: a guerra fria acabou, ou ao menos está sendo suspensa por interesse mútuo.
É a aritmética da sobrevivência. Luciano não quer chegar à próxima eleição municipal carregando o peso de ser oposição a Célia — e ela, por seu lado, tem toda a razão para preferir Arapiraca como praça amiga. Cidades grandes demais para ignorar, pequenas demais para abandonar. Nesse cálculo miúdo e preciso que é a política do interior, o entendimento entre os dois não é virtude, é geometria.
Só que a sucessão da prefeitura de Arapiraca não é um tabuleiro de dois jogadores. Yale Fernandes já está no jogo, e a família Nezinho — que raras vezes assistiu a uma disputa local sem colocar uma peça própria na mesa — deve querer, como se diz nos corredores, um nome para chamar de seu. O tabuleiro, portanto, está mais movimentado do que a trégua entre Luciano e Célia faz parecer.
Há uma cena clássica nessas circunstâncias: os que se entenderam primeiro convencem a si mesmos de que controlam o resultado, quando na verdade apenas garantiram a própria cadeira de negociação. O acordo bilateral abre a porta, mas quem entra por ela ainda está sendo decidido nos bastidores, em conversas que não chegam nem ao telefone desbloqueado nem às notas da imprensa.
Por ora, é esperar. E observar com atenção quem, afinal, deterá o nome que sai desse baralho — se é que alguém deterá.




