Ainda falta muito para 2027, mas em Brasília o calendário obedece a outro relógio. Enquanto a Câmara já tem seu enredo praticamente decorado — o apoio partidário acomodado em torno de Hugo Motta, sem sobressaltos —, o Senado continua de portas escancaradas, correntes de ar entrando por todos os lados. E foi nessa corrente de ar que soprou um nome que ninguém esperava ouvir tão cedo: Arthur Lira.
Discretamente. É assim mesmo que esses nomes surgem. Não há anúncio, não há palanque, não há entrevista coletiva. Há o murmúrio, que é a forma mais eficiente de candidatura na capital federal. Davi Alcolumbre, que parecia dono do próprio destino, aparece nos bastidores sob a sombra de um desgaste possível, por conta de relações com gente citada em investigações de repercussão. Ninguém afirma nada. Todos comentam tudo. É o suficiente.
O curioso da hipótese não é Lira. É quem a acha interessante. Integrantes do governo e da bancada do PT enxergam no senador eleito por Alagoas um articulador previsível, cumpridor de acordos. Previsibilidade, convenhamos, é o elogio mais sincero que se pode fazer a um político brasileiro — vale mais que coerência, vale muito mais que afinidade ideológica. Em Brasília, não se pergunta se o sujeito pensa como você. Pergunta-se se ele entrega o que prometeu entregar.
Porque Lira, lembremos, declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial. E segue sendo apontado como alguém capaz de conversar com correntes diversas e colaborar com a governabilidade. Não há contradição nisso, ao menos não na gramática local. No Parlamento, adversário é circunstância; interlocutor é profissão. Quem confunde as duas coisas costuma terminar a legislatura falando sozinho.
Nada está confirmado. Nem sequer se sabe se Lira pretende disputar o comando do Senado. Mas a política se faz muito mais de nomes que circulam do que de nomes que se candidatam, e um nome posto a circular já cumpriu metade de sua missão: mexeu com o tabuleiro alheio. Alcolumbre que se cuide, não da candidatura de Lira, que talvez nem exista, mas da conversa sobre ela.
Resta a lição de sempre, que o Senado reaprende a cada 4 anos sem nunca de fato memorizar: ninguém é dono de uma cadeira que depende de quarenta e um votos. Pede-se, todas as vezes. Licença.



