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De atacadista a varejista

Divisão de pastas é como partilha de herança: todos juram desapego até a hora de abrir o inventário. No governo eleito de JHC, o inventário está aberto e dá para ouvir, de longe, o barulho dos móveis sendo arrastados.

O primeiro movimento foi de recuo, e recuo calculado. Arthur Lira não quer a Saúde. Não por modéstia, mas porque sabe o que vem dentro do pacote — heranças problemáticas, dessas que chegam embrulhadas em papel de presente e explodem no colo de quem assina. Em compensação, segue de pé o acordo pela Infraestrutura e Transportes, que serão fundidas numa só, e pela Educação. Sobre esta última, há conversa de que o senador eleito possa até abrir mão, a depender do tamanho do cofre da nova super-secretaria. Tudo muito claro: o que se negocia não é organograma, é orçamento.

As demais pastas não fazem os olhos liristas brilharem. E, não brilhando, sobram para quem sobra. Junior Leão deve ser indicado para a Secretaria de Governo; o tenente-coronel Luiz Diego deve ocupar o Gabinete Civil; a Seprev fica com Kelmann Vieira. O desenho está quase pronto, faltando apenas a assinatura e aquele silêncio constrangido de quem recebeu o que ninguém mais queria.

Só que há um detalhe que pesa mais do que o próprio acordo. Arthur Lira saiu menor da eleição. Apoiador fervoroso de Flávio Bolsonaro, deve perder as indicações nos principais cargos federais em Alagoas, inclusive as diretorias na Caixa Econômica Federal. Quem negociava com um atacadista passa a negociar com um varejista — e a tabela de preços muda.

Daí a pergunta que ninguém no Palácio formula em voz alta, mas que todos já formularam em pensamento: até que ponto Lira ainda interessa a JHC? Em política, acordo não se rompe. Apenas vai perdendo a utilidade, devagarinho, até virar lembrança.

Conta menor  Fervoroso na campanha de Flávio Bolsonaro, Arthur Lira deve perder as indicações nos principais cargos federais em Alagoas, além das diretorias na Caixa Econômica Federal.

Não ofende  Aliado que perde o cofre federal continua sendo aliado por quanto tempo?

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