A eleição terminou, mas ninguém avisou aos combatentes. Em Alagoas, apurados os votos e proclamado o resultado, a disputa simplesmente mudou de endereço: saiu das ruas e entrou nos corredores da Assembleia Legislativa, onde se decide, agora, o que o próximo governo encontrará quando chegar.
O que se vê é uma espécie de mobília pregada no chão. Entre as propostas que tramitam, uma chama atenção pela aritmética: os mandatos dos dirigentes da Arsal passariam de dois para cinco anos. Dois anos cabem dentro de um governo. Cinco, não. A conta é simples demais para ser inocente.
Por isso a inquietação do governador eleito JHC. Não se trata de vaidade de quem acaba de vencer, trata-se de algo mais prosaico: um programa de governo pressupõe mãos para executá-lo. Se as peças essenciais já estiverem distribuídas e com prazo de validade estendido para além do horizonte, o novo governador corre o risco de enfrentar dificuldades administrativas antes mesmo de assinar o primeiro ato.
Ninguém aqui contesta a competência do Legislativo. A Assembleia tem atribuições próprias, legisla sobre o que lhe compete e não precisa pedir licença a Poder algum para fazê-lo. O ponto é outro, e é o único que importa: essas iniciativas nascem do interesse público ou são o prolongamento, por outros meios, de uma disputa que as urnas já encerraram?
A resposta não está no texto dos projetos, está no calendário. Medidas que só produzem efeito depois da posse alheia carregam sempre a suspeita de terem sido escritas olhando para o espelho retrovisor. É o velho hábito de quem se despede e, antes de entregar a chave, troca a fechadura.
Fica, então, uma lição que a política insiste em não aprender: resultado eleitoral não é sugestão. Quem venceu tem direito a governar, e quem perdeu tem direito a fiscalizar. Inverter os papéis no cartório não muda o enredo. Apenas atrasa o espetáculo.




