Há na política brasileira um pecado tão antigo quanto corriqueiro: o de que cada prefeito que chega trata a obra do antecessor como entulho a ser removido. Demole-se o que foi erguido, rebatiza-se o que já tinha nome, risca-se o que estava no papel — e a cidade recomeça do zero a cada quatro anos, como se fosse possível construir alguma coisa em canteiro permanentemente revirado. Rodrigo Cunha fez diferente. Deu sequência aos investimentos turísticos de Maceió, manteve iniciativas da gestão anterior e ainda ampliou os espaços de lazer. É pouco? Para o manual, é o mínimo. Para a nossa prática, é quase heresia.
A nova orla, a roda-gigante, os mirantes, a programação de eventos culturais. Tomados um a um, são equipamentos. Tomados em conjunto, são outra coisa: são a ideia de que a cidade pode ser vista de fora com os mesmos olhos com que é vivida por dentro. Um mirante serve ao turista que desembarca e serve ao morador que nunca teve onde sentar para olhar o próprio mar. Essa coincidência não é detalhe. É o teste.
E o mercado respondeu. Noventa por cento de ocupação na rede hoteleira no feriado de outubro, segundo a Prefeitura. Quem conhece o ramo sabe o que esse número quer dizer: não é hotel cheio apenas, é restaurante com fila, é taxista rodando, é camelô vendendo, é comércio girando, é carteira assinada. O turismo tem essa virtude de irrigar o que está em volta — e essa fragilidade de secar depressa quando o poder público desvia o olhar.
Aí mora o desafio, e ele não é pequeno. Inaugurar é fácil, e rende foto. Difícil é manter: zelar pelo que foi entregue, varrer, iluminar, consertar, vigiar, repintar. A praça bonita de hoje é a praça abandonada de depois de amanhã se ninguém pagar a conta da manutenção, que é tediosa, invisível e jamais vira palanque. Espaço público é como casa: não se herda, se cuida.
Resta a pergunta que importa de verdade, e que nenhuma taxa de ocupação responde sozinha. De que adianta a capital encher se o maceioense continuar de fora da festa? O crescimento turístico só se justifica quando desce do balanço contábil e chega ao bairro, ao emprego, à renda de quem mora. Investir, Rodrigo Cunha investiu. Falta agora a parte que separa o administrador do governante: fazer com que a cidade vendida ao visitante seja a mesma cidade devolvida ao morador.




