Há transições de governo que se fazem com pasta de papel, planilha e conversa de corredor. E há as que se fazem com peça processual, plantão judiciário e multa diária. Alagoas escolheu a segunda via, e escolheu cedo.
Reparem no desenho. Um decreto estadual nomeia Otávio Lessa para a diretoria-presidência da Arsal. O governador eleito JHC vai à Justiça por ação popular e obtém, na Vara Plantonista Cível, a suspensão do ato — com multa de R$ 10 mil por dia a quem ousasse descumpri-la. Nesta sexta-feira (6), o desembargador Fábio Bittencourt, presidente do Tribunal de Justiça, acolhe o recurso apresentado em conjunto pela Arsal e pelo Governo do Estado e devolve ao Decreto nº 113.415/2026 a sua eficácia. A posse volta a andar. O relógio, que estava parado, reata o tique-taque.
Quem acompanha o jogo por dentro sabe que a cadeira da Arsal, por si, não move paixões dessa intensidade. O que move é o efeito colateral: com a ida de Otávio Lessa para a agência reguladora, abre-se ao governador Paulo Dantas a vaga de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Eis o ponto. Agência reguladora é posto de governo; conselheiro de TCE é posto de vida inteira, que sobrevive a mandatos, a eleições e ao esquecimento dos eleitores. Entre o cargo que se perde na virada do ano e o cargo que não se perde nunca, não há político que hesite.
Daí a pressa de um lado e a pressa do outro, espelhadas. O governador em exercício trabalha contra o calendário, que corre contra ele; o eleito trabalha contra o relógio, que corre a favor dele. A ação popular, instrumento nobre pensado para defender o patrimônio público do cidadão comum, aparece aqui como peça de tabuleiro, movida pelo sucessor contra o antecessor. E o antecessor responde com recurso, assinado a quatro mãos pela autarquia e pelo Estado. Ninguém está improvisando. Cada gesto tem destinatário certo.
Resta o Judiciário, que nessas horas não é árbitro: é o terceiro jogador, aquele cuja caneta decide quem entra em campo. Liminar concedida de madrugada, liminar cassada em dias. O cidadão alagoano, que paga a conta das tarifas que a Arsal regula e das contas que o TCE julga, assiste ao litígio sem direito a palavra — e com a nítida impressão de que a disputa não é sobre quem regula o serviço público, mas sobre quem fica com a cadeira depois que as luzes se apagarem.
O mandato de JHC ainda não começou e a herança já está sendo inventariada no cartório forense. Mau sinal. Governo que nasce em contencioso raramente aprende a conversar depois.




