É difícil compreender, à primeira vista e sem acesso aos números completos, como o governo Paulo Dantas pretende executar R$ 5 bilhões em obras na chamada Grande Maceió. O anúncio grandioso — feito em meio à crescente pressão pública — surge num momento em que o Palácio República dos Palmares tenta estancar a reação negativa provocada pelo acordo considerado “pífio” até mesmo por aliados, firmado entre o Estado e a Braskem.
A estratégia é evidente: enquanto críticas e questionamentos se avolumam sobre a postura do governo no maior desastre urbano em curso no país, uma ofensiva de anúncios bilionários busca construir a narrativa de que grandes investimentos estão a caminho. Mas a aritmética, quando examinada, não sustenta o espetáculo.
As obras apresentadas até agora pelo governo estadual para Maceió somam valores muito distantes do montante divulgado. Entre os projetos já anunciados estão o Mercado de Jaraguá, estimado em R$ 8 milhões; o chamado Hospital da Pessoa Idosa, previsto em R$ 15 milhões; além de outras iniciativas de porte semelhante, todas relevantes, mas incapazes de alcançar, somadas, algo sequer remotamente próximo dos propagados R$ 5 bilhões.
A disparidade entre o discurso e os números levanta uma questão inevitável: quem fiscalizará o dinheiro? Em que projetos, de fato, o governo pretende aplicar tamanha cifra? E onde estão os planos executivos, cronogramas e detalhamentos orçamentários que deveriam acompanhar qualquer anúncio dessa magnitude?
A ausência de transparência alimenta suspeitas num estado historicamente marcado por escândalos envolvendo obras superdimensionadas, contratos aditivados e promessas que nunca se materializam além dos palanques. Entre técnicos do próprio governo, a portas fechadas, cresce o desconforto com o que alguns classificam como uma “contabilidade política”, feita para recompor imagem e desviar o foco da crise com a Braskem.
Enquanto isso, a população — tão carente quanto descrente — recebe cada novo anúncio com uma combinação de esperança e ceticismo. Sabe que qualquer investimento real será bem-vindo, mas também reconhece que balanços definitivos só costumam aparecer quando os governantes já não estão mais nos gabinetes que ocupam.
Na prática, a “verdade sobre os números” só será conhecida quando Paulo Dantas deixar o comando do Estado. Até lá, permanecem a promessa bilionária, as obras de valores modestos e uma pergunta que ecoa entre especialistas, opositores e até aliados: onde, afinal, estão os R$ 5 bilhões?




