Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

A visão que não enxerga o horizonte

Há um ritual antigo na política que se repete com a pontualidade das estações: o do empréstimo anunciado como obra, do crédito disfarçado de progresso, da dívida vestida com a roupa de domingo do desenvolvimento. O governo de Paulo Dantas acaba de cumpri-lo, à risca, ao assinar com Itaú, Santander e Bradesco um contrato de R$ 846,8 milhões. Cento e vinte meses para pagar, doze de carência. Os números são generosos. O prazo, longo. A conta, como sempre, fica para depois. Os recursos, dizem, irrigarão o tal Programa Visão Alagoas IV. Ora, pois — já vamos no quarto capítulo de uma visão que parece nunca alcançar o horizonte que promete. As romanas seriadas ao menos têm o pudor de mudar de enredo. Aqui, o que muda é apenas o algarismo romano e, claro, o tamanho do compromisso assumido em nome de uma população que assinará a fatura sem nunca ter visto a letra miúda. E que letra miúda. O acordo tem aval da União, com contragarantias do próprio Estado: receitas do Fundo de Participação dos Estados, arrecadações próprias, tudo penhorado de antemão como quem entrega as chaves de casa antes mesmo de receber o empréstimo. São mecanismos que funcionam, dizem os técnicos, como garantia de pagamento. Tradução: se o devedor falhar, o credor já sabe onde meter a mão. Há ainda o detalhe quase cômico da taxa de 2% para o caso de desistência antes do desembolso. Curiosa cláusula. Mesmo recuar custa caro. Como se os bancos, prudentes como sempre foram, soubessem que o tipo de governante que assina contratos dessa monta dificilmente tem o estômago — ou a coragem — de voltar atrás. Maquiavel ensinava que o príncipe deve temer mais a própria imprudência do que a fortuna adversa. Os nossos príncipes nativos, contudo, aprenderam a inverter a lição: gastam o que ainda não têm, comprometem o que ainda não arrecadaram, e chamam isso de visão. Visão, diga-se, de quem enxerga apenas até o fim do próprio mandato. O resto — os dez anos de pagamento, os juros, o futuro hipotecado — fica para os sucessores e, sobretudo, para o contribuinte, esse personagem mudo de todas as óperas-bufas do orçamento público.

VEJA TAMBÉM