Desde 1914, Alagoas convive com uma promessa que nunca se transforma em pedra e cal. Mais de um século de enchentes, de famílias refeitas do zero, de plantações engolidas pelo mesmo rio que deveria ser fonte de vida. Um século. E o discurso, curiosamente, envelheceu menos que as vítimas.
Há algo de cruel nessa repetição — não a crueldade da natureza, que ao menos tem a honestidade de não fazer campanha, mas a crueldade administrada, calculada, daqueles que ano após ano encontraram na tragédia alheia matéria-prima para palanque. A enchente vem, a comoção vem, as câmeras vêm, a promessa vem. E depois o refluxo: das águas e das intenções.
O que torna o caso alagoano ainda mais difícil de engolir é o espelho pernambucano. Do outro lado da divisa, barragens foram construídas. Estão lá, em concreto, visíveis, funcionais. Não são uma utopia de engenheiro entusiasmado — são obras. Enquanto isso, Alagoas segue esperando, como se o sofrimento de sua gente fosse de categoria inferior, como se a geografia do descaso parasse exatamente na fronteira estadual.
A pergunta que ressoa não é técnica nem orçamentária. É moral. Quantas tragédias compõem o preço de entrada para que uma obra saia do papel? Quantas famílias precisam recomeçar do lodo para que alguém, em algum gabinete, decida que já é suficiente? Prevenir custa menos — e isso não é slogan, é aritmética básica de qualquer gestor que mereça o nome.
O povo da Zona da Mata, do Vale do Paraíba, do Norte, do Sul, da Região Metropolitana e até do Sertão alagoano não elegeu governantes para ouvir boas intenções entoadas em ano eleitoral. Elegeu para ser protegido. Há uma diferença enorme entre o político que vai à luta e o político que vai ao microfone. O primeiro deixa barragens. O segundo deixa discursos — e esses, as águas levam junto com tudo o mais.
Fonte: Wadson Regis
O povo da Zona da Mata, do Vale do Paraíba, do Norte, do Sul, da Região Metropolitana e até do Sertão alagoano não elegeu governantes para ouvir boas intenções entoadas em ano eleitoral. Elegeu para ser protegido. Há uma diferença enorme entre o político que vai à luta e o político que vai ao microfone. O primeiro deixa barragens. O segundo deixa discursos — e esses, as águas levam junto com tudo o mais.
Fonte: Wadson Regis
Barragem do Prata, no Agreste de Pernambuco – Foto: Compesa/ Divulgação




