Há obras que nascem como promessa e envelhecem como emblema. A duplicação da AL-220, apresentada com toda a pompa de quem anuncia a redenção de um povo, já atravessou anos suficientes para se transformar naquilo que a política alagoana conhece de sobra: o projeto que serve melhor como discurso do que como asfalto. Em 2021, era estratégica. Ligaria o Agreste ao Sertão, costuraria territórios, reduziria distâncias. Belo sonho. Mas os sonhos, já ensinava o florentino, precisam de mais do que boa vontade para se materializarem. Precisam de competência, de continuidade, de vontade que não se dobre ao calendário eleitoral. O que se viu, nos anos seguintes, foi uma sequência de revisões de cronograma que transformaram a obra num relógio que nunca marca a mesma hora duas vezes. O governador Paulo Dantas falou em 2025. Renan Filho, senador e articulador de seu próprio retorno ao Palácio, projeta 2027. Dois anos de diferença entre dois protagonistas do mesmo campo político. A oposição, naturalmente, não deixou passar. As redes sociais tampouco. E o povo do Agreste e do Sertão, esse, continua esperando — não pela conclusão da obra, mas pela próxima data que lhe será oferecida como consolo. Ora, pois. É curioso como certas obras ganham mais vida nas campanhas do que nos canteiros. A AL-220 promete ser, em 2026, muito mais do que uma rodovia em construção: será argumento, será acusação, será promessa reembalada. João Henrique Caldas, apontado como adversário do grupo governista, já deve saber que o quilômetro de asfalto que falta vale, em ano eleitoral, mais do que todos os que já foram entregues. Esse é o cálculo da política — e nele, diga-se, nenhum dos envolvidos é amador. A tísica das obras públicas no Brasil tem diagnóstico conhecido: começa com o anúncio glorioso, avança para a revisão silenciosa e termina, quase sempre, na promessa renovada às vésperas das urnas. Maquiavel chamaria de virtù essa capacidade de transformar o atraso em oportunidade. Nós, mais humildes, chamamos de rotina.




