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O problema do Senado não é a idade — é o caráter

Há uma pergunta que ronda os corredores do poder com a persistência de um fantasma mal-assombrado: o Senado precisa de renovação ou de experiência? Parece simples. Não é. Os defensores da renovação falam em sangue novo, em oxigenação da política, em varrer as teias de aranha acumuladas por décadas de acomodação mútua. Têm alguma razão. O Senado brasileiro conheceu, ao longo de sua história, uma fauna de notáveis que transformaram a Casa em reduto de privilégios perpétuos, onde os mandatos de oito anos servem menos à república do que ao conforto dos próprios senadores. Mas os arautos da experiência também não estão errados de todo. Há um saber de bastidor, um conhecimento das engrenagens do Estado, que não se aprende em cartilha nem se improvisa em discurso de posse. Maquiavel, que entendia do assunto como poucos, já advertia: o poder tem lógica própria, e quem chega sem conhecê-la costuma ser devorado por ela antes de operá-la. O problema real não é a idade nem o tempo de casa. É a mentalidade. O Senado pode ser jovem e igualmente provinciano. Pode ser experiente e igualmente corrupto. O que falta — e aqui está o nó da questão — é a disposição genuína para servir ao país em vez de servir-se dele. Isso não tem a ver com biologia nem com currículo. Tem a ver com caráter, matéria rara em qualquer prateleira. Ora, pois. A renovação sem substância é apenas a troca de uma mediocridade por outra mais descansada. E a experiência sem honestidade é, em linguagem direta, a institucionalização da rapinagem. O eleitor que se guia pelo critério errado — seja ele a novidade pelo deleite da novidade, seja a velha guarda pela comodidade do conhecido — contribui, sem saber, para perpetuar exatamente o que diz querer mudar. A casa continua a mesma. Mudam as faces, permanecem as práticas. E o país, pacientemente, aguarda que alguém resolva afinal essa equação — não com retórica de campanha, mas com a única moeda que a república aceita como pagamento válido: a entrega real ao bem comum.

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