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A colheita do jardineiro

Há uma arte silenciosa e raramente celebrada no exercício do poder: a de transformar a máquina pública em instrumento de perpetuação, sem que ninguém ao redor pareça notar — ou queira notar. Paulo Dantas domina esse ofício com a desenvoltura de quem já o pratica há tempo suficiente para não precisar mais disfarçá-lo.

Enquanto o governador tropeça nas pedras miúdas de Maceió, onde a eleição de vereadores se mostrou um terreno ingrato e pouco favorável ao seu projeto, é na arena proporcional estadual e federal que ele exibe a musculatura real. Ali, o jogo muda de natureza. Deixa de ser disputa e passa a ser administração de resultados.

A lista não é modesta. Luciano Amaral, favorito a disputar palmo a palmo com Alvinho Lira a condição de mais votado na corrida federal; Isnaldo Bulhões e Rafael Brito, pelo MDB; Davi Maia e Rui Palmeira, pelo PSD. Cinco nomes, ao menos quatro com condições objetivas de chegar lá. Isso não é campanha eleitoral — é logística.

E o cuidado se estende ao plano estadual. Paulinho Mendonça, também do MDB, deve ser eleito deputado com conforto, embalado pelo mesmo vento que sopra da Rua da Palma. A diversificação de legendas é estratégica, naturalmente: o governador não põe todos os ovos na mesma cesta, porque sabe que cestas tombam.

O que se desenha, portanto, não é uma eleição. É uma colheita. E Paulo Dantas, com a serenidade de quem plantou na estação certa e irrigou nos momentos devidos, prepara-se para passar pela temporada com bancadas generosas e compromissos distribuídos. A máquina pública, nesse roteiro, é o adubo. Os candidatos, as flores. E o governador, o jardineiro — zeloso, meticuloso e absolutamente convicto de que o jardim lhe pertence.
Fonte: Ricardo Mota

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