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Quem nunca entrou pela porta: JHC aposta no eleitor invisível das inaugurações de Renan

Há disputas eleitorais que se definem não pelo volume de obras entregues, mas pelo ângulo em que cada candidato posiciona a câmera. JHC entendeu isso antes de ligar o gravador.

O ex-prefeito de Maceió e Renan Filho travam, neste momento, um duelo que tem tudo para revelar o temperamento desta eleição: de um lado, a retórica do concreto armado — terreno, tijolo, cimento, o hospital que surgiu do nada como monumento à gestão; de outro, a retórica do acesso — quem entrou pela porta, quem nunca havia entrado antes, o que mudou na vida de gente que nunca foi contabilizada nos cortes de fita inaugurais. São duas formas de narrar o mesmo verbo, cuidar. E narrar, na política, é quase tudo.

A aquisição do antigo Hospital do Coração — referência privada para quem podia pagar — e sua conversão no Hospital da Cidade, inteiramente público, inteiramente SUS, é a peça central desta narrativa. Não foi uma fundação, foi uma inversão. O que servia de fronteira simbólica entre quem merecia e quem não merecia a melhor medicina disponível passou a atender qualquer cidadão regulado pelo sistema público. É o tipo de gesto que dispensa palanque: ele se explica sozinho, ou deveria.

JHC foi preciso na formulação — às vezes a frase certa vale mais que dez inaugurações: “Para ele, saúde é tijolo, cimento e construtora. Para mim, saúde é gente, é cuidado, é cirurgia, é médico e paciente sendo tratado com dignidade.” Há nessa dicotomia um risco calculado. Renan Filho construiu hospitais, e isso é fato difícil de desconstruir. Mas ao deslocar o eixo do debate da quantidade de metros quadrados para a qualidade do acesso, JHC tenta fazer com que a pergunta do eleitor deixe de ser “quantos hospitais foram erguidos?” e passe a ser “e para mim, abriram alguma porta?” É uma aposta no eleitor que nunca pisou no equipamento inaugurado com pompa.

O endurecimento no final do vídeo — os “escândalos” da saúde estadual, a tal “caixa-preta” que ele cobra abertura — sinaliza que a campanha não pretende ficar só no afeto da inclusão. Quer também o desgaste. Nesse ponto, a estratégia ganha um segundo andar: se o primeiro é emocional e inclusivo, o segundo é investigativo e agressivo. Se a combinação pegar, Renan Filho terá que defender não apenas o que construiu, mas o que aconteceu dentro de suas obras. E defender o passado, como ensinaram os mais velhos deste ofício, é sempre a posição mais ingrata da disputa.

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