Há uma aritmética perversa na gestão pública brasileira, e Alagoas a pratica com a regularidade de quem nunca foi interrompido no meio do caminho. Entre janeiro e junho deste ano, o estado movimentou R$ 11,34 bilhões em despesas primárias — pouco mais da metade de um orçamento anual de R$ 19,21 bilhões, gasto em apenas seis meses. Os números são do Tesouro Nacional, levantados pela plataforma Gasto Brasil, e não precisam de nenhum adorno para causar vertigem.
Mais de R$ 5,45 bilhões foram para pessoal e encargos sociais. O aparato se sustenta, se alimenta, cresce sobre si mesmo. Os investimentos chegaram a R$ 1,24 bilhão — uma fatia considerável no papel, um fio de esperança diante da proporção do todo. O cidadão que aguarda numa fila de hospital, que atravessa uma rua esburacada, que desiste de chamar a polícia porque sabe que ela não virá, esse cidadão não vive dentro das planilhas. Ele vive do lado de fora, olhando os números passarem como carros em avenida que não leva até a sua casa.
A questão não é nova, mas precisa ser dita com a clareza que os relatórios orçamentários raramente oferecem: gastar não é sinônimo de entregar. O Estado moderno descobriu há muito que o volume de recursos empenhados funciona como argumento de defesa antes mesmo de qualquer cobrança. Fala-se em bilhões aplicados, e a conversa parece encerrada. Só que a conversa não encerra — ela apenas muda de endereço e vai morar no cotidiano de quem depende dos serviços públicos para sobreviver.
Há uma frase atribuída a Talleyrand, diplomata que sobreviveu a todas as revoluções de seu tempo, que serve aqui como luva: “Tudo o que é exagerado é insignificante.” Bilhões exagerados sem resultado proporcional tornam-se, ao fim, uma cifra vazia — imponente no noticiário, insignificante na vida real. Alagoas gastou mais da metade do seu orçamento anual em meio ano. A pergunta que sobra não é contábil. É moral. E merece resposta à altura dos números.




