O silêncio que fala
Em Alagoas, a política entrou naquele estado de fermentação que antecede os grandes reordenamentos. Não é ainda o confronto aberto, nem a aliança selada — é o intervalo tenso entre um e outro, quando os atores circulam pelos bastidores com aquela cautela de quem atravessa um salão às escuras e não tem certeza de onde estão os móveis.
Renan Filho e JHC avançam como prováveis candidatos ao governo do estado, e até aí o enredo parece previsível. O que ninguém ainda consegue ler com clareza é o que acontece nas margens desse duelo — nas conversas reservadas que envolvem Renan Calheiros, Arthur Lira, Alfredo Gaspar, Davi Davino e Luciano Barbosa, o prefeito de Arapiraca. São nomes que carregam histórias longas e, entre si, um inventário considerável de acordos cumpridos, promessas esquecidas e afrontas não declaradas. Exatamente o tipo de matéria-prima com que se constroem as viradas mais inesperadas da política brasileira.
O sintoma mais revelador desse momento é a geometria variável das lealdades. Velhos amigos que deixaram de caminhar juntos. Adversários de longa data que voltaram a se falar. Aproximações que até pouco tempo pareciam improváveis, e que agora, ao que tudo indica, já não são mais tão improváveis assim. Quem acompanha a política alagoana sabe que esse tipo de movimento raramente é inocente. Nos xadrezes que antecedem uma eleição, cada conversa tem endereço e cada silêncio, intenção.
O mais eloquente, neste momento, é justamente o silêncio público. Poucos falam. Os que falam o fazem em código. Nos bastidores, porém, entre uma reunião e outra, a pergunta circula com insistência: quem estará com quem? É a pergunta certa. Porque em Alagoas — como em toda política que se leva a sério — saber com quem cada um estará é, no fundo, saber quem cada um é.




