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A frase que colou

Há uma frase que circula pelos bastidores políticos com a desenvoltura de quem nunca precisou de passaporte: “se é político e é rico, pode ter certeza que é ladrão.” A autoria é atribuída a Heloísa Helena, e não importa muito se ela a disse exatamente assim ou se a memória coletiva a aperfeiçoou no caminho — o que importa é que a frase colou. E quando uma frase cola desse jeito, é porque tocou em algo que o povo já sabia, mas ainda não havia articulado com tanta economia de palavras.

O problema, claro, não está na frase. Está no terreno fértil em que ela germinou.

Existe uma tradição, quase uma pedagogia informal da república, que ensina ao cidadão comum a desconfiar do enriquecimento político como se desconfia de fruta boa demais na beira da estrada: pode ser veneno, pode ser cilada, pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Essa desconfiança não é ignorância popular — é experiência acumulada. É história sedimentada em camadas, como a geologia das traições e dos desvios que marcam o calendário republicano brasileiro desde que o calendário existe.

Mas há também o perigo da generalização absoluta, aquele em que a régua niveladora rasa tudo sem distinção. Quando o cinismo se institucionaliza como única forma de leitura do mundo, ele próprio se torna um instrumento de poder — o poder dos que preferem que o cidadão desacredite de tudo e de todos, pois da descrença total nasce a paralisia, e da paralisia nasce a resignação, que é o húmus preferido de quem rouba em paz. A frase de Heloísa Helena, assim, pode ser lida de dois modos opostos: como grito de lucidez ou como convite ao niilismo. Depende de quem a usa e com qual finalidade.

O que fica, ao cabo, é a constatação de que o sistema político brasileiro produziu, ao longo de décadas, condições suficientes para que uma sentença tão radical parecesse razoável à maioria. Não como exagero retórico. Como diagnóstico. E quando o diagnóstico radical começa a soar moderado, é sinal de que o paciente esperou tempo demais na sala de espera.

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