Há uma arte muito antiga no repertório dos que governam: a de responder perguntas com outras perguntas, ou melhor, com paisagens. Pergunta-se sobre o destino, e o governante aponta o horizonte. Pergunta-se sobre os frutos, e ele descreve o clima favorável. Na sabatina da TV Pajuçara desta terça-feira, Renan Filho executou essa partitura com a segurança de quem a decorou há muito.
A pergunta era simples, quase cirúrgica: de cada cem jovens que concluírem os cursos de qualificação profissional, quantos conseguirão emprego? Em que prazo? Como o governo acompanhará esse resultado? A resposta veio embalada em panorama nacional. “O Brasil está em mínima de desemprego histórica. Alagoas também está em máxima de carteira assinada histórica.” Frase redonda, fotogênica, e inteiramente lateral à questão. É o que se poderia chamar, sem maior cerimônia, de a arte do espelho: mostrar ao interlocutor não o que ele perguntou, mas o reflexo mais lisonjeiro do que ele já sabe.
O problema é que os números insistem em ser precisos onde o discurso prefere ser vago. No primeiro trimestre de 2026, Alagoas registrou taxa de desocupação de 9,2%, entre as mais altas do país, com a subutilização da força de trabalho batendo em 26,1% — o que significa que mais de um quarto dos trabalhadores alagoanos está fora, em subemprego ou simplesmente desistiu de procurar. Em abril, o Novo Caged registrou fechamento líquido de 1.505 vagas no estado. No acumulado do primeiro semestre, o saldo foi negativo em aproximadamente 8,2 mil postos formais. São dados áridos, sem retórica, que não se dobram ao cenário nacional como argumento de defesa.
Qualificação profissional sem meta de empregabilidade é política pública sem endereço. É o mapa sem o território. Pode-se formar centenas, milhares de jovens em cursos bem-intencionados e bem fotografados, e ainda assim não saber, ao fim, se algum deles encontrou trabalho, em quanto tempo, em qual setor. Sem indicadores de inserção, sem prazo de acompanhamento, sem percentual definido de resultado, o programa existe para ser anunciado — não para ser avaliado. E política que não aceita avaliação não é política pública: é propaganda com orçamento.
O dado sobre Maceió revela, aliás, a concentração que torna o desafio ainda mais complexo: a capital reúne 45% dos vínculos formais de Alagoas e respondeu por mais da metade dos empregos gerados no estado nos últimos doze meses. O interior, portanto, depende de uma política ativa de descentralização que a qualificação sem metas dificilmente alcança. Formar um jovem no sertão para um mercado que se concentra na orla é, no mínimo, uma equação incompleta. A população alagoana merece mais do que horizontes bonitos. Merece saber, com números e prazos, para onde a política efetivamente vai.




