Há anos em que a política se move devagar, quase imperceptível, como rio de planície que engana quem olha da margem. E há anos em que tudo converge, e o que parecia imutável começa a rachar nas juntas. Alagoas, em 2026, parece ter chegado a um desses anos.
Onze anos é uma era em política. É tempo suficiente para construir uma máquina, capilarizar alianças, distribuir favores e consolidar um projeto de poder. É também tempo mais do que suficiente para acumular o peso que eventualmente dobra qualquer estrutura. O calheirismo soube edificar como poucos — mas os desgastes que a apuração do Paraná Pesquisas agora ilumina não chegaram de fora. Vieram de dentro. Foram sendo tecidos fio a fio, eleição após eleição, nos 70 mil votos de diferença de 2022, nos insatisfeitos que partiram, nos opositores que cresceram e perceberam que a simples resistência ao nome Calheiro já era, por si só, uma plataforma eleitoral viável.
JHC não é exatamente uma novidade ideológica. Centro como Renan Filho, sem declarar o jogo nem para um lado nem para o outro, navegando com cuidado entre Brasília e o eleitorado local. O que ele representa, portanto, não é uma ruptura doutrinária — é uma ruptura de ciclo. A onda que o carrega não tem a natureza de quem chega com uma ideia nova; tem a natureza de quem chega para fechar uma conta. E contas abertas por uma década tendem a ser saldadas com juros.
O paradoxo cruel da longevidade política é este: o maior adversário de quem governa por muito tempo raramente é o oponente que se apresenta na cédula. É a sombra acumulada dos próprios anos no poder. Rodrigo Cunha em 2018, Luciano Barbosa em Arapiraca dois anos depois — o padrão já estava dado. Ser o contraponto ao arranjo dos Renans havia se tornado, silenciosamente, a estratégia mais eficaz disponível em Alagoas. Pela primeira vez, Renan Filho enfrenta de fato uma eleição ao governo — sem campo limpo, sem adversários ornamentais, sem a articulação que antes bastava para resolver antes do apito.
A eleição ainda não terminou. Há lenha, como costuma haver. Mas o fogo que os Calheiros precisarão apagar desta vez foi alimentado por suas próprias mãos ao longo de onze anos. E fogueiras assim — íntimas, domésticas, construídas tijolo a tijolo dentro da própria casa — são as mais difíceis de controlar.




