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O ônibus e o elefante

Havia, no confronto, uma desproporção que beirava o teatro do absurdo. De um lado, o Governo do Estado, o Governo Federal, a Assembleia Legislativa, noventa prefeituras, cinco cadeiras na Câmara dos Deputados e duas no Senado. Do outro, um ônibus. Um busão que rodou durante uma semana.

O ônibus perdeu. Ou não perdeu — dependendo de como se lê o placar.

Porque há vitórias que constrangem quem as celebra. Quando uma coalizão dessa envergadura se mobiliza para derrotar um veículo de transporte coletivo, o triunfo, se existe, é de uma espécie estranha: soa menos como força e mais como nervosismo. Menos como hegemonia consolidada e mais como aquela ansiedade de quem aperta o botão do elevador várias vezes, como se a repetição pudesse apressar a chegada.

Renan Filho tinha, a rigor, todos os trunfos da mesa. O governador, o presidente da República, o Legislativo estadual, a quase totalidade dos prefeitos do estado e bancada farta em Brasília. É o tipo de alinhamento que, na geometria do poder, deveria tornar qualquer disputa não apenas vencível, mas desnecessária. O adversário deveria ter simplesmente se recolhido diante da paisagem.

Não se recolheu. Fez uma semana de estrada num ônibus e transformou a desproporção em narrativa. Em política, narrativa é tudo — às vezes, é mais do que votos.

O que fica dessa cena não é a contagem dos recursos de cada lado. O que fica é a pergunta incômoda que a aritmética não responde: para que serve tanto poder, afinal, se ele precisa ser inteiramente convocado para enfrentar um adversário com um ônibus e uma semana de agenda?

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