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Lira entre Bolsonaro e Lula: a arte de servir a dois senhores sem se curvar a nenhum

Há políticos que vencem eleições. E há os que vencem a política. Arthur Lira pertence à segunda espécie — mais rara, mais perigosa e, à sua maneira torta, mais fascinante de se observar.

Ele próprio se define como “o diferenciado”. A modéstia nunca foi seu forte, é verdade, mas neste caso específico a vaidade tem amparo nos fatos. Lira é o tipo de personagem que Maquiavel descreveria com admiração mal disfarçada: o príncipe que não precisa do trono para mandar, porque aprendeu que o verdadeiro poder mora nos bastidores, não nos palanques. Enquanto outros se expõem ao sol e ao vento das disputas declaradas, ele transita na sombra confortável de quem já garantiu sua posição independente do resultado do jogo.

A geometria política do deputado alagoano é, para usar um termo da física, não-euclidiana. Não obedece às regras comuns do espaço político. Flávio Bolsonaro o cita como seu candidato ao Senado, ao lado de JHC. Lula, do outro lado do universo eleitoral, não encontra nele obstáculo algum — e Lira, gentilmente, comanda os principais cargos federais no estado sem sequer mencionar o presidente nas propagandas de obras. A raposa come o frango do galinheiro alheio e ainda volta para jantar na casa do dono. E o dono agradece.

O mais revelador, porém, é o que se passa na corrida pelo Senado. Lira e Renan Calheiros, dois veteranos que dispensam apresentações, disputam entre si uma vaga que, no entendimento de ambos, já está destinada a Marina. A cena tem a elegância silenciosa de um acordo de cavalheiros — ou melhor, de dois jogadores experientes que sabem exatamente qual mesa vale a pena. Ninguém se agita à toa. Ninguém desperdiça munição.

Diferenciado, ele disse. O adjetivo cabe. Num país onde a maioria dos políticos escolhe um lado para sobreviver, Lira escolheu todos os lados. E nenhum deles reclama.

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