Há histórias que a política alagoana gosta de recontar a si mesma, como quem relê cartas antigas à luz de uma vela. A de 2018 é uma dessas. Rodrigo Cunha avançava invencível nas pesquisas, já era senador nos bastidores antes de sê-lo nas urnas, e o que restou para os veteranos foi a disputa mesquinha e decisiva pela sobra — aquele segundo lugar que tanto pode ser salvação quanto certificado de irrelevância. Benedito de Lira e Renan Calheiros se degladiaram pela segunda vaga, e Renan ficou com ela. O Biu foi para casa.
Oito anos depois, a cena se repete com a precisão perturbadora de quem tropeça duas vezes na mesma pedra do mesmo corredor. Marina JHC já é tratada como senadora eleita nos comitês que importam — os de Arthur Lira e os do próprio Renan. Não há suspense ali. O suspense está no que vem depois, na segunda cadeira, naquela fração do destino que não coube à favorita.
E é nesse espaço exíguo, nessa fresta entre o que está definido e o que ainda não está, que se decide quem vai vestir o pijama em 2026. A expressão é dura, mas a política costuma ser mais dura ainda com quem perde no próprio reduto. Perder para um adversário histórico, no estado que foi sua tribuna por décadas, não é derrota — é epitáfio.
O curioso, ou o cruel conforme o ângulo, é que o filho do Biu agora ocupa o lugar do pai nesse duelo. Arthur Lira enfrenta Renan Calheiros na mesma arena onde o velho Benedito sangrou. A hereditariedade política em Alagoas não funciona apenas como herança de base eleitoral ou de sobrenome — funciona também como herança de rivalidades, de confrontos adiados, de contas que cada geração herda e é obrigada a saldar. O ódio aqui também passa de pai para filho com a naturalidade de um bem de família.
Renan já sabe o que é sobreviver. Lira já sabe o que é construir. Em 2026, Alagoas vai descobrir qual dessas habilidades vale mais quando as duas se encontram, de frente, numa disputa onde não há segundo empate possível.




